Uma apologia à História: conhecer o passado é aprender a viver

O que é, com efeito, o presente? No infinito da duração, um ponto minúsculo e que foge incessantemente; um instante que mal nasce morre. Mal falei, mal agi e minhas palavras e meus atos naufragam no reino de Memória. (Marc Bloch, in: Apologia da Historia ou ofício de historiador)

Ao referir-se ao conhecimento acerca dos fatos do passado, o pensador e historiador romano Cícero (Sec. I a.e.C.) afirmava: “A História é mestra da vida”. Com isto apontava para o conhecimento acerca das experiências humanas vividas e provadas por nossos antecessores como sendo um grandioso monumento a ser contemplado com reverência e consideração, capaz de levar o homem a aprender com os erros, refletir com os acertos e crescer com ambos. Deste modo, pode-se considerar feliz aquele indivíduo que é capaz de fazer da própria vida uma escola e do passado um grande professor. Alguém assim, consegue digerir os fatos vivenciados de modo a produzir aprendizado e vida nova. Em espírito de gratidão, reconcilia-se e perpetua na sua memória a alma e a existência daqueles que o precederam, mantendo-os vivos por meio de seu agir e proceder no tempo presente.

Documentos, fatos, imagens, escritos, apenas falam quando questionados, quando alguém se importa em ouvi-los e se interessa por aquilo que têm a dizer. Deixá-los expressar o que precisam e podem desvelar é o mesmo que ouvir o grito e o clamor de muitos santos e pecadores, assertivos ou negativos, os quais nos apontam as setas, os caminhos e, por que não, a necessidade de um retorno ao impulso original de nossa missão cristã, ou mesmo à uma conversão.

Respeitar-lhes enquanto homens dignos de reverência não isenta-lhes de qualquer julgamento, mas equivale sobrepor aquilo que fizeram de melhor, mesmo diante dos erros mais banais. Desde modo, honramos suas memórias e esperamos, um dia, compreender o porquê de suas atitudes e modos de ser. Assim como a inspiração divina levou o autor bíblico a afirmar que a sabedoria “se deixa ver por aqueles que a amam, e encontrar por aqueles que a buscam” (Pr 1, 12), podemos dizer que o testemunho histórico talvez seja um dos meios mais favoráveis para tal encontro. Tornemos, pois este, o encontro memorável de nossas vidas e, por que não, de nossa vocação religiosa, franciscana e cristã.

Que o amor à Nosso Senhor, causa e alimento para o vigor espiritual que levou inúmeros homens a deixarem tudo o que possuíam a fim de servir e dedicarem-se a um ideal maior, seja também nosso propulsor às realidades onde nos inserimos. Assim como estes santos do passado, somos também nós: santos que constroem sua história à duras penas, com marcas por vezes dolorosas, mas repletas de amor e dedicação.

Comecemos nossa jornada pelo passado, reconstruindo a História da Custódia Franciscana do Sagrado Coração de Jesus a partir dos cacos que formam este belo mosaico de cores e imagens. Sabemos que alguns destes “cacos” perderam-se com o tempo; outros se desfiguraram; e há até aqueles que não se enquadram mais junto ao todo. Diante disso, o que importa é confiar que somente a Graça Divina será quem completará esta bela figura. Quanto ao nosso agir, na completude dos tempos é que saberemos se erramos ou acertamos, quanto erramos e acertamos; por hora, simplesmente vivenciamos plenamente nossa vocação.

Boa “Jornada Histórica”! Que o passado, revivido nesta pequena “novela”, os anime a seguir caminho e construir a sua própria História.

Frei Everton Leandro Piotto, OFM

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