Memória de São Boaventura: Doutor da Igreja e grande sistematizador do pensamento franciscano

São Boaventura, nascido em Bagnoregio (Bagnorea)-Itália em 1217, foi batizado com o nome de João e recebeu ainda na infância um milagre de cura por intercessão de São Francisco de Assis. Cursou artes liberais em Paris e também entrou em contato com as Filosofias grega e árabe. Estudou Teologia, sendo discípulo do grande mestre Alexandre de Hales entre 1243-1248. Formou-se bacharel em estudos Bíblicos e Bacharel Sentenciário – autorizado a comentar as Sentenças de Pedro Lombardo –, o que lhe serviu de base para uma obra original, a qual nos foi preservada até os dias de hoje. Em 1254 alcançou o título de magister (mestre) e em 1257 foi eleito superior geral da Ordem dos Frades Menores, o que o fez interromper as atividades acadêmicas em favor da Ordem. Exerceu com força e coragem seu generalato, auxiliando e muito, na organização e estruturação desta instituição franciscana. Após dedicar-se fielmente à Ordem Franciscana, sendo posteriormente nomeado Bispo e Cardeal de Albano, faleceu aos 15 de julho de 1274. (Cf. DE BONI, 1999, p. 17-19). Dentre suas principais obras destacamos: Breviloquium (1257), Itinerarium Mentis Deum (1259), Redução das Ciências à Teologia (1251), dentre outros escritos, sermões e biografias como a Legenda Maior e Legenda Menor de São Francisco de Assis.

Em Paris o Doutor Seráfico – como também é chamado São Boaventura – aparece como um grande educador e responsável por uma síntese teológica entre a tradição neoplatônico-agostiniana e a aristotélico-tomista, de modo a poder-se dizer que sua importância consiste neste mesmo fato, de ser “o forjador da síntese da filosofia tradicional frente à síntese tomista edificada sobre o aristotelismo” (IRIARTE, 1985, p. 199). Em sentido teórico-místico podemos afirmar que “tudo aquilo que o Poverello [Francisco de Assis] sentia e vivia, tudo isso, era transformado em pensamento pelo Doutor Seráfico” (BERNARDI, 2003, p. 27). E, ainda no campo da Filosofia e Teologia, tomamos parte no que afirma Frei Lázaro Iriarte, ofmcap ao dizer: “Deve-se reconhecer, na sistematização da espiritualidade franciscana, levada a cabo principalmente por São Boaventura, uma gênese intelectual, que nos permite falar, ainda que em sentido impróprio, de uma escola franciscana: uma continuidade da corrente agostiniana e platônica a que Alexandre de Hales e o doutor seráfico tiveram acesso através de Santo Anselmo e da escola de São Vitor” (IRIARTE, 1985, p. 152).

Numa de suas obras, intitulada Itinerário da Mente para Deus, o santo traça um belíssimo caminho de santificação pessoal e de busca pela contemplação do divino, algo comum aos grandes místicos da Igreja no decorrer da História. E exatamente por se tratar de um verdadeiro “pedagogo da fé” é que encontramos, também ao redor de Boaventura de Bagnoregio e da posterior escola franciscana, uma verdadeira corrente de pensamento e de espiritualidade, com características bem peculiares. Digno de se mencionar é o que Boaventura afirmou sobre esta íntima relação da alma humana com Deus: “Entra, pois, ó homem, em ti mesmo e observa com que ardor tua alma se ama a si própria. Ora, ela não poderia amar-se, se não se conhecesse. Nem poderia conhecer-se, se não tivesse lembrança de si mesma. Porque nossa inteligência não aprende senão aquelas coisas que a memória torna presentes. Vê, portanto, não com os olhos da carne, mas com os olhos da razão, como nossa alma possui três potências [memória, inteligência e vontade]. Considera as atividades e as relações mútuas dessas três potencias e poderás ver a Deus em ti mesmo como na sua imagem” (Itinerário, Cap. III, v. 1).

Em outros de seus escritos, concebia a ideia de que a inteligência, sendo algo dado pelo criador, devia ser potencializada e elevada, devidamente, ao mais alto grau possível, haja vista que “a exigência do homem é absoluta, pois a alma humana nasceu para conhecer tudo” (MERINO, 1999, p. 128). Desse modo, o estudo pessoal por meio do esforço e da “pesquisa racional [são] o caminho para alcançar altos graus de saber; mas quem quiser prender-se a ela, cairá

inevitavelmente em erro” (ZAVALONI, 1999, p. 100); ou seja, ainda que não anule o fato de ser por meio da aquisição dos saberes e dos estudos que a alma humana consiga favorecer a santificação e a compreensão acerca de Deus, São Boaventura, quase que parafraseando seu pai espiritual Francisco de Assis, deixou-nos também o alerta de que o estudo da Teologia – que para ele era a superior de todas as ciências – jamais pode induzir à perda do “espirito de oração e devoção”.

Do mesmo modo, desenvolvendo uma verdadeira Teoria do Conhecimento, o franciscano apontou para o fato de que “a alma humana, tanto em sua inteligência como em sua vontade, está dotada de um impulso ilimitado que a abre ao infinito” (MERINO, 1999, p. 129); assim, sendo criada à imago dei – imagem de Deus – a alma humana é capaz de conhecer e apreender inúmeros saberes, desde aqueles terrenos, até os celestiais, por meio da contemplação. Nesta tese, percebemos que o saber alcançado a partir do aprendizado sobre as coisas criadas, as criaturas, serve de elemento base para o crescimento e desenvolvimento do conhecimento intelectual e do saber espiritual, até que se chegue à verdade plena, ou seja, à Trindade Santa. Algo possível, obviamente, mediante a iluminação e graça do Criador, que é o grande mediador de todo saber. E aqui fazemos menção ao que Frei Lázaro Iriarte, ofmcap aponta: “todos os homens são chamados à contemplação sapiencial e se não chegam a ela é por falta de generosidade” (1985, p. 154); e: “os dados da experiência mística devem juntar-se, no método bonaventuriano, aos da observação científica e aos da especulação filosófica” (IRIARTE, 1985, p. 194).

Isto nos demonstra que o pensador franciscano apresenta uma belíssima concepção acerca da forma como adquirimos o conhecimento. A qual, partindo-se dos vestígios de Deus (criaturas), em seguida passando pela imagem (na alma) e semelhança (identificação com o amor de Cristo), somos capazes de nos elevar, como que por meio de uma escada, até à contemplação da Trindade. Neste aspecto, o Doutor Seráfico se assemelha ao que dizia Santo Agostinho em seu escrito “A verdadeira religião”: “não saias de ti, mas volta para dentro de ti mesmo, a Verdade habita no coração do homem” (AGOSTINHO, 2002, p. 98). Colocando, como ponto essencial para a elevação da alma humana à contemplação espiritual de seu criador, a volta desta mesma alma para a própria interioridade, onde está Deus, com o intuito de buscar em si mesma a verdade que procura, o Doutor Seráfico se associa perfeitamente à tradição neoplatônico-agostiniana.

Já em seu Itinerarium, Boaventura baseou-se na experiência de Francisco de Assis no Monte Alverne – quando recebeu os Sagrados Estigmas após intensos momentos de oração –, para ensinar aos homens os meios seguros de elevação espiritual e contemplação. A partir desta influência boaventuriana, temos que “para o franciscanismo, conhecer o homem se tornou um desafio permanente, uma vez que [se] está convencido [de] que o próprio Deus o escolheu para se fazer presença visível no mundo” (BERNARDI, 2003, p. 17). Isto posto, somente alcançaremos a contemplação do criador quando começarmos, passo a passo, a contemplar as criaturas, depois o nosso próprio interior e, somente após longos exercícios de interiorização, passarmos a buscar a presença de Deus dentro em nós mesmos, contemplando-O. “Nosso espírito se ilumina para conhecer os diversos degraus de nossa elevação a Deus. Com efeito, na atual condição de nossa natureza, o universo é a escala pela qual ascendemos ao criador (…). Para chegarmos à consideração do primeiro Princípio essencialmente espiritual, eterno e acima de nós, é necessário passarmos pelo vestígio, que é material, temporal e exterior. Isso significa pormo-nos na via de Deus”. (Itinerário, Cap. I, 2)

Aqui ganha sentido o cuidado com a criação, com a natureza, com nossa Casa Comum. Algo intensamente valorizado pela espiritualidade franciscana e por todos os seguidores deste carisma. Se a natureza e o universo que nos cercam servem de base inicial para um “futuro encontro” com o Criador de tudo, de nossa parte torna-se imperativo proteger, cuidar e amar cada criatura como sinal, “vestígio”, marca desde mesmo Autor. Isto explica o porquê a espiritualidade franciscana volta-se ao cuidado do homem e dos seres criados, vendo-os como parte de um todo, integrado.

Sabendo disso, quem sabe um dia, ao tomarmos consciência de que somos apenas uma parte deste todo, deixaremos de lado nosso orgulho humano e começaremos a defender a vida com todas as nossas forças.

Frei Everton Leandro Piotto, OFM


AGOSTINHO, A verdadeira religião. São Paulo: Paulus, 2002.

BERNARDI, Frei Orlando. Francisco de Assis: um caminho para a educação. Bragança Paulista: EDUSF; Curitiba: Faculdade São Boaventura; Ifan, 2003.

DE BONI, Luis Alberto. In: Boaventura de Bagnoregio: escritos filosófico-teológicos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. v.1.

IRIARTE, Lázaro. História Franciscana. Petrópolis: Vozes; CEFEPAL, 1985.

MERINO, José Antônio. Humanismo Franciscano: franciscanismo e mundo atual. Petrópolis, RJ: 1999.

SARANYANA, Josep-Ignasi. A Filosofia Medieval: das origens patrísticas à escolástica barroca. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2015.

ZAVALLONI, Roberto. Pedagogia Franciscana: desenvolvimento e perspectivas. Petrópolis-RJ: Vozes, 1999.



 

Outras Postagens

Início