A vida consagrada ao modo de Francisco e Clara de Assis

Celebramos nesse final de semana (18 e 19) na Igreja do Brasil, no âmbito do mês vocacional, o dia dos Consagrados. Talvez, dos segmentos contemplados no mês vocacional, é aquele menos conhecido, e, por consequência, menos compreendido e valorizado.

Quem são os consagrados? Que significa ‘consagração’? Qual seu papel na Igreja? Qual sua efetiva colaboração nas comunidades cristãs? Para que servem homens e mulheres que se dizem ‘consagrados’ a Deus, num mundo em que essa ‘consagração’ é tão discutida e que causa tanta contradição?

E, depois, de tentarmos enfrentar essas questões, que significa ainda ser consagrado ao modo de Francisco e Clara de Assis?

Por certo, é pretensioso responder todas essas questões no espaço de tempo dedicado a um artigo. Ademais, são questões tão complexas e profundas que a gente, como consagrados, passamos a vida a imprimir respostas novas ou renovadas a elas. Portanto, vou apenas indicar algumas linhas de reflexão. Apenas suscitar pontos para meditação.

Os Consagrados, grupo extenso que absorve várias formas de vida na Igreja, que vão dos eremitas (aqueles ou aquelas que vivem no silêncio e na solidão, ainda que tenham alguma expressão comunitária), os monges e monjas (que também apreciam a vida de silêncio e de escondimento em Cristo, mas que têm forte expressão comunitária), os religiosos e religiosas de vida apostólica (que se dedicam à pregação ou à educação ou ao acompanhamento dos vulneráveis e sofredores – enfermos, crianças e adolescentes em situação de risco, vítimas de violências diversas, população em situação de rua, enfim, toda sorte de excluídos ou desconsiderados na sociedade), os consagrados ou consagradas de grupos ou movimentos mais recentes, cuja organização é mais flexível e, em geral, mais próximos das formas secularizadas de vida ou de retomada de alguns valores esquecidos ou negligenciados pelas ordens ou congregações estabelecidas.

O que une a todos é justamente a ‘consagração’. A palavra, cujo radical vem de ‘sagrar’, tornar ‘sagrado’, indica pessoa ou coisa destinada a Deus, pertencente a Deus ou a serviço de Deus. Assim, os consagrados são homens e mulheres que se dispõem a serem como oferendas agradáveis a Deus, como servidores contínuos e perpétuos de Deus, na liturgia, na pregação e apostolado, no amor a Cristo nos pobres e sofredores, enfim, no testemunho convicto, alegre e destemido das realidades do Reino de Deus, como setas que apontam para o mundo que há de vir. E esse é o seu papel na Igreja: homens e mulheres orantes e dispostos a colaborar em todas as frentes onde o Senhor indicar, como filhos e filhas solícitos, de acordo com o carisma próprio de cada instituto ou congregação.

Os consagrados franciscanos e franciscanas também vivem essas dimensões. O que deve caracterizar o franciscano e a franciscana é a liberdade: a liberdade em relação às posses – não se sentir e não ser dono de nada, de ninguém, nem de suas próprias ideias. É homem ou mulher livre para que essa liberdade promova espaço para amar incondicionalmente. Daí deriva o amor à ‘pobreza’ ou despojamento. São marcados pela simplicidade e pela humildade, e conhecidos pela alegria da liberdade que elas geram.

Por certo que isso não indica que não possam ser gestores de alguns bens, mesmo materiais. Mesmo na gestão dos bens, devem agir como ‘servos humildes e inúteis’, não como donos ou senhores poderosos, e prestar contas com integridade e amor daquilo que lhes fora confiado, multiplicando os dons. Constituem-se simples administradores do bens eternos, porque são esses os que buscam : os mais elevados e espirituais.

Ao mesmo tempo, religiosos e religiosas, e também os franciscanos, precisam amar a verdade. Num mundo da ‘pós-verdade’ em que a palavra dada e a palavra empenhada custam pouco e são desvalorizados, os irmãos e as irmãs deviam primar pela transparência e honestidade. Pela palavra rara e preciosa, mas verdadeira. Pelos gestos eloquentes e proféticos, hauridos da escuta silenciosa do Coração de Cristo, no qual se refugiam.

Tenho visto que em nosso tempo, os amantes da Verdade – agora com maiúscula, porque tudo converge para a Verdade que é Cristo – estão escassos. E amar a Verdade é amar sua irmã e companheira, a Caridade. Verdade sem Caridade é tirania, é opressão. A caridade, sem verdade, desfigura-se. Pode ser cumplicidade ou paternalismo, mas jamais caridade. A Caridade, outrossim, associada à Verdade, torna-se Serviço. Torna-se Oblação-Entrega. Torna-se Humildade – porque também amplia a autoconsciência e busca em Deus, seu Tudo -o Sumo Bem. Sabe que nós homens e mulheres estamos sempre sujeitos às nossas mentiras e descuidos. A Verdade liberta, nos subtrai do jugo do pai das mentiras e nos faz imergir em Cristo, a plena Verdade. Ela fomenta o espírito puro, os gestos e palavras castos.

Também característica da família franciscana é a fraternidade. Fraternidade ou irmandade não é estar sempre junto, colado um ao outro. Mas é ter um só coração, um só alma, um só espírito, uma só caridade. É amarmos uns aos outros em Cristo, que é a Verdade. E ser irmão ou irmã nas e para além das comunidades religiosas, e abraçar toda a criatura, e junto de toda a Criação cantar um hino de louvor a Deus. Daí nasce a itinerância – ‘peregrinos e forasteiros neste mundo’. Gente que sabe sair sempre, como o mandato de Abraão: « Sai da tua casa e vai aonde te mostrarei ». Sair da Casa, é sair da fixidez, da rigidez de estruturas e de modos de pensar, é abrir-se ao encontro e à acolhida! Estar sempre a caminho, nas estradas e na vida, como ‘peregrino e forasteiro’. Novamente: ser livre !

Assim, irmãos e irmãs franciscanas em princípio consagram-se à Verdade, na Humildade e na Caridade Fraterna. E o que os move é a intimidade com Deus. Em tudo deve presidir o espírito de oração e devoção. Por isso a importância para o franciscanismo de todos os tempos, de lugares de recolhimento e oração – chamados de ‘eremitério’. Como exorta Santa Clara, é preciso fixar nosso olhos em Cristo, Espelho da Eternidade, e transformar-nos, gradativamente pela contemplação, n’Ele. A dimensão contemplativa do carisma é vivida como alternância à vida apostólica, marcada pela pregação itinerante e pela mendicância.

A mendicância é saber viver da Providência, cujas manifestações são infinitas. Abri-se à bondade e misericórdia de Deus que não se deixa vencer em generosidade, e convidar a outros que o façam. E os desígnios de Deus – Bondade, Misericórdia e Providência- se desvelam no diálogo íntimo, silencioso e confiante do homem e mulher reconhecidos e penitentes, como o publicano ou o filho pródigo, que se dirige a Deus como Pai, mesmo sabendo-se filho ingrato e pecador! Aos pés do Altíssimo, irmãos e irmãs franciscanos recobram sentido de vida e discernimento!

Que o Senhor nos ajude nesta empreitada. Ele nos abençoe e nos guarde! Volte para nós sua Face e de nós se compadeça! Mostre-nos seu Roste e nos dê a Sua Paz!

Frei Marcio Ponzilacqua, OFM




 

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