Ano do Laicato – Parte X: “O franciscanismo como uma das expressões do laicato”

Irmãos e irmãs,
nesse ano em que celebramos o “Ano Nacional do laicato” ofereceremos para você uma série de artigos (12 capítulos) que tratará sobre a vida do cristão leigo na Igreja, ademais,  contribuiremos também numa ótica do carisma franciscano.

Desejamos a você uma boa leitura!

Um grande abraço fraterno.

PAZ e BEM!

Equipe de Comunicação


PARTE IPARTE IIPARTE III | PARTE IV | PARTE V | PARTE VI | PARTE VII | PARTE VIII | PARTE IX


– PARTE X –

A gestação da Ordem Franciscana Secular: O Movimento Franciscano e a Penitência

Após os Editos de Milão (em 313) é Tessalônica (380), a realidade da Igreja mudou consideravelmente. Especialmente depois das “invasões bárbaras” (por volta de 476 aconteceu a queda de Roma, o fim do Império Romano), percebemos que há intenso esforço por parte dos feudos remanescentes e da vida religiosa monástica – o que havia sobrevivido dela após as invasões – de se iniciar um processo de expansão do cristianismo entre os povos invasores. Isto se deu fortemente também entre os leigos, fosse com os recém convertidos que ajudavam nas lutas por conquista de povos e comunidades pagãs, fosse por motivações clericais ou políticas dos líderes regionais.

Ressalte-se, no período Medieval, que terá inicio após tais invasões, o fato de as comunidades cristãs não sofrerem mais com a perseguição exercida pelo governo; também a abrangência da atuação eclesial, bem expressa na figura hierárquica de seu clero, que serviu de forte elemento de elo para os diversos povos adentrados no território europeu, passou a influenciar e a receber influências do Estado. A ideia agostiniana de “cidade de Deus” favorecia e estimulava esta intervenção no meio civil, gerando um modelo de Igreja com ampla relação com o mundo. Neste período histórico, posteriormente reconhecido como “cristandade”, percebemos nitidamente o estreitamento de laços entre religião e política, consequentemente acabando por distanciar a comunidade cristã medieval daquele modelo pastoral primitivo. O “povo de Deus” é visto agora como “povo cristão”, e os interesses do Império, passam a ser também interesses e problemas eclesiásticos. Há nova configuração na estrutura e na missão Eclesial. Aqui, não obstante consistir num instrumento para ordenar o mundo para Cristo, com leis e normas de conduta, também assumiu o papel de garantir a unidade e o poder do Estado.

O conceito de “Corpo de Cristo”, fortemente experienciado pelos primeiros cristãos, é expressado através da necessidade de se ordenar, vigiar e punir tudo aquilo que não é enquadrado nesta “cidade de Deus”, que tinha no “Império” um grande órgão protetor e promovedor. O clero é enxergado como “alter Christus” – outro Cristo – e tem por função estabelecer a ordem do povo e conduzi-lo sempre, inclusive por meio de dogmas teológicos. Toda a sociedade passa a reconhecer forte centralidade na pessoa do clérigo, principalmente monásticos, e estes por vezes assumiam a frente de feudos e até de cidades inteiras. Houve também, neste período, maior afastamento da pessoa do bispo para com o povo, enaltecendo a necessidade de presbíteros, os quais exercerão a dupla missão de pastoreio e regente junto ao pastor da diocese. Note-se que as comunidades e vilas, esparsas e afastadas favorecem o crescimento do clero, enquanto o Bispo acomodava-se nas cidades maiores, por muitas vezes até governando grandes extensões de glebas. Com isto, coube ao presbítero, como vassalo do “senhor feudal”, cuidar das almas e auxiliar nos negócios e relações diplomáticas com os líderes dos povos – para o denominado “alto clero” – e celebras Missas e oferecer sacramentos ao povo – para o denominado “baixo clero”.

Outro fato a se destacar é que houve forte separação entre clero (associado ao poder espiritual, portanto mais “santo”) e o povo (associado ao poder temporal, logo pecador). Inclusive entre o próprio clero encontramos diferenciação: o baixo clero (padres sem formação teológica, apenas para atender à necessidade sacramental dos mais pobres), que se distinguirá fortemente do alto clero (os religiosos, intelectuais e os quais representavam a cabeça pensante da Igreja). Este último era encarregado da diplomacia com os senhores feudais e reis, além das grandes pregações e da transmissão dos saberes teológicos nas grandes igrejas abaciais e nos palácios, enquanto aqueles ocupavam-se das comunidades menos importantes.

Notemos ainda que houve grande prejuízo para catequese, a qual deixava de batizar adultos, novos convertidos à fé cristã, para garantir o crescimento e força do cristianismo por meio do batizado de crianças, fundamentando isto em Pedro, quando diz em Atos 2,38-39, que a promessa do batismo é “para você e seus filhos, e aqueles muito longe”, e ainda em Atos 21,21 e Atos 16,33, para favorecer o batismo conferido a crianças menores de oito dias de idade. Vale mencionar que tal prática, embora inserisse desde cedo o fiel na comunidade cristã, desfavorecia o processo de iniciação à vida cristã e, consequentemente, limitava a oportunidade de atuação dos leigos na comunidade de fé, pois favorecia uma “igreja de massa” e não uma comunidade repleta de carismas.

Com isso, o leigo na Idade Média precisou encontrar seu espaço na medida em que se defrontava com as estruturas tradicionais e hierárquicas da Igreja e do Estado.

Os leigos penitentes e sua importância no medievo cristão

No entanto, percebemos que a Igreja sempre valorizou muito a penitência e os indivíduos que se dedicavam a ela. Exemplo disso são as Quaresmas, que já eram recomendadas pelos santos Padres desde longa data. Santo Ambrósio, por exemplo, já pedia que as quaresmas em preparação à Páscoa, por parte dos catecúmenos, fossem vivenciadas mais intensamente e de modo mais austero a fim de abrirem-se plenamente à Graça Divina. Notemos que, frente à degradação espiritual por parte de cristãos clérigos e leigos, havia constante anseio pela mudança de vida, principalmente por parte de certos grupos de fiéis e clérigos mais dedicados. Embora houvesse aqueles que não seguiam com afinco os preceitos doutrinais eclesiásticos, a consciência da necessidade de “metanóia” continuava presente entre os fiéis. “O termo metânoia na língua grega, mesmo fora do contexto religioso, significa mudança de uma persuasão, de uma atitude ou de um desígnio anteriormente concebido e abraçado, para o bem ou para o mal” (PAZZELLI, 2009, p. 12). Este termo, agora utilizado para significar a conversão de vida e mudança dos costumes, é associado ao termo Penitência (latim: paenitentia, conversio), aplicando-se àqueles que, na Igreja, desejavam mudar sua forma de conduta a fim de assumirem nova postura religiosa e civil.

Já às vésperas do nascimento de Francisco de Assis, associa-se a tudo isto a Reforma Gregoriana, ocorrida no século XI, que alcançou sua dupla finalidade de libertar a Igreja da dominação do poder secular e do restabelecimento do modo de vida regular para o monasticismo e o clero. Isto favoreceu também o forte desejo, difundido no meio das massas mais conscientes, de se vivenciar uma simplicidade e coerência de vida cristã mais pobre e inspirada no cristianismo primitivo, haja vista que as Ordens tradicionais pouco se esmeraram em mudar o seu modus vivendi e tampouco o clero secular conseguia alcançar a preparação e o esmero dignos do povo de Deus.

Neste contexto, grupos laicos, florescendo por diversos lugares na Europa, apregoavam-se ao direito de proclamar e pregar a Palavra de Deus a partir de seu próprio testemunho. Alguns eram pregadores itinerantes – os valdenses – e outros, caídos em heresias – os cátaros – não faziam por atacar e denunciar os abusos e erros dos padres e bispos, por vezes até agentes de perseguições e mortes de clérigos. Em contrapartida os penitentes empenhavam-se por manter-se unidos entre si e com a Igreja em comunidades ou fraternidades orantes, os quais, mesmo sem residência fixa, seguiam um “propositum vitae” e, por meio da “professio”, aceitavam a autoridade comum superior ao grupo. Vale mencionar também os “Humilhados” da Lombardia, que dividiam suas vidas entre oração e trabalho, levando vida semimonástica, contribuíam com a construção de igrejas e mosteiros. Eram diversas as confrarias, surgidas sob diferentes inspirações, quase sempre regidas ou estruturadas a partir do laicato. São estes grupos que representam a atuação do leigo

neste período da História Medieval, algo que São Francisco intuiu muitíssimo bem ao associar, à sua milícia, os grupos de casados e leigos que almejavam se enfileirar junto aos frades sem, contudo, perderem sua “laicisidade”.

Digno de nota é o perigo que os grupos dos penitentes ainda fiéis à Igreja corriam constantemente, fosse por ataques dos hereges, ou até mesmo por influências do pensamento teológico herético. Embora houvessem perdido a inspiracional configuração bíblica de metanóia, passando mais a um comportamento – ethos – penitencial, por meio de atitudes e expressões exteriores, filiação à estruturas eclesiásticas e regras a serem seguidas do que algo puramente interior ao indivíduo, ainda caracterizavam-se por leigos, batizados, que viviam no século sem, contudo, pertencerem totalmente a ele.

No próximo artigo aprofundaremos mais acerca da realidade, experienciada por Francisco de Assis a partir dos movimentos laicos antes de iniciar a Ordem dos Frades Menores, a fim de compreender a influência que o “povo de Deus” exerceu sobre o Poverelo e sobre o movimento Franciscano.

Em louvor de Cristo. Amém!

Frei Everton Leandro Piotto, OFM


Referências:

Conferência dos Assistentes Gerais da Ordem Franciscana Secular. Manual para a assistência à Ordem Franciscana Secular (OFS) e à Juventude Franciscana (Jufra). RJ: Ordem Franciscana Secular do Brasil, 2014.

Dicionário Franciscano. RJ: CEFEPAL\Editora Vozes LTDA, 1993.

MONDIN, Danillo. História da Igreja na Antiguidade. São Paulo: Ed Loyola, 2006, 2ª Ed., p. 78

PAZZELLI, Raffaele. São Francisco e a Ordem Terceira: O movimento pré-franciscano e franciscano. Santo André: Editora Mensageiro de Santo Antônio, 2009.

PRAGENBERG, Frei Egberto. Francisco entre os seculares: Tópicos históricos-sociais. Rio de Janeiro: Editora Vozes LTDA, 1996.

RODRIGUES, E.R. Ministério dos leigos na Igreja: à Luz do Novo Testamento. Aparecida: Ed. Santuário, 2000.



 

Outras Postagens

Início