Ano do Laicato – Parte XI: “O franciscanismo como uma das expressões do laicato”

Irmãos e irmãs,
nesse ano em que celebramos o “Ano Nacional do laicato” ofereceremos para você uma série de artigos que tratará sobre a vida do cristão leigo na Igreja, ademais,  contribuiremos também numa ótica do carisma franciscano.

Desejamos a você uma boa leitura!

Um grande abraço fraterno.

PAZ e BEM!

Equipe de Comunicação


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– PARTE XI –

Formação da Ordem Franciscana Secular: os inícios

Para entendermos como era a vida do leigo na Idade Média, precisamos compreender um pouco o conceito de Cristandade, que caracteriza a sociedade eclesial européia da época. Três principais elementos precisam ser considerados nesse período: o processo de burocratização e institucionalização estrutural da Igreja; a adoção do modelo jurídico romano com a finalidade organizar a doutrina e a vida interna da Igreja; e, o incremento do modelo de vida monástica como característico da religião católica.

Assimilando os valores de instituições humanas, a Igreja mudou seu rosto. Com isto, o leigo se tornou figura inexpressiva, tanto eclesial quanto socialmente, não passando de um cristão que exercia tarefas de ordem temporal, sempre ligadas ao trabalho manual e impossibilitado de participar das atividades relacionadas ao desenvolvimento intelectual. Algo limitado ao mundo material e carnal, relacionado às realidades transitórias, tornava quase inviável quaisquer atuações dos leigos nos ofícios e ritos eclesiais. Sendo entendida a partir da ideia de corpo, caracterizada pela unidade dos fiéis, porém hierarquizada, a Igreja constantemente vigiava e sustentava a manutenção e a estrutura das três ordens – a monástica, a clerical e a leiga. Tal ordem social era piramidal: de base ampla, composta pelos “homens carnais” e os casados (leigos), trabalhadores e homens livres, e aguda no topo, composto pela corte, pelos clérigos e religiosos.

Consequentemente, devido à existência destas diversas “ordens” laicais, houve também certa preocupação com a vasta ordem dos leigos, onde surgiram escritos sermões e textos éticos para o povo de Deus. No entanto, depois do ano mil pôde-se notar um forte despertar do laicato, com intensificação na busca por sua identidade. A este respeito vale mencionar que entre os séculos XII e XV nota-se a existência de numerosos escritos vulgares destinados aos leigos. Ainda merecem destaque os diversos movimentos que surgiram a partir do século XII, os quais apresentavam intensa busca pela vida de pobreza e radicalidade evangélicas; grupos que acabaram por se tornar expressivos no contexto medieval (SEMERARO, 1994, p. 26). Paralelas a estes, surgiram as “Confraternitas”, que pulularam por toda a Europa entre a Idade Média e a Modernidade (ANGELOZZI, 1978). Dentre estas últimas, há aquelas que remontam sua origem nos antigos irmãos da Penitência, “alguns desses grupos colocavam-se sob a direção de um mosteiro ou recolhiam-se às novas instituições regulares, como os premonstatenses ou os humilhados, formando uma ‘terceira ordem’ de seculares casados ou celibatários” (IRIARTE, 1985, p. 538). Isto se deveu ao “desenvolvimento urbano, a criação das comunas [que] contribuíram para a formação de um terceiro estado entre os dois existentes dos feudais e clericais, um estado novo, independente em sentido democrático” (PRANGENBERG, 1996, p. 30).

Os Papas Inocêncio III e Honório III, contemporâneos à Francisco, preocupar-se-ão em cuidar e oferecer a estes grupos de leigos a conscientização de coerência e da personalidade canônica de acordo com a Igreja. “Assim, em fins do século XII, junto ao ‘ordo clericorum’ e ao ‘ordo monachorum’, veio acrescentar-se o ‘ordo paenitentium’, acolhido também ao foro eclesiástico” (IRIARTE, 1985, p. 538). Estes grupos de leigos aspiravam uma vivência evangélica mais radical. Isto por vezes levava ao erro das heresias e apostasia. Por outro lado, eram fortes as levas de fiéis que buscavam austeridade e fidelidade à Igreja. “O cristianismo da confraria – assim eram chamadas essas associações – era nitidamente popular” (Joseph Comblim, in: PRANGENBERG, 1996, p. 30). Também Max Delespesse afirmou: “As confrarias eram formadas por um grupo quem não passava de cem pessoas. Tais associações eram autônomas. Tinham seu serviço de assistência, suas caixas mútuas, seus bens comuns, suas obras pias, suas festas e seu santo protetor… elas deram forma e estrutura religiosa mais concreta ao povo que vivia na cidade”

(PRANGENBERG, 1996, p. 30-31). “Ao longo do século XII, (…) numerosos leigos procuraram formas de vida que lhes permitissem conciliar as exigências de uma existência consagrada a Deus com as que lhes eram impostas pela sua condição de cristãos que viviam no mundo. (…) Reivindicavam a possibilidade de acederem avida apostólica, ainda que permanecendo no seu estado. Entre eles, havia solteiros e havia casados” (VAUCHEZ, 1995, pp.133-134).

Alia-se a isto o crescimento das cidades, fora dos feudos – os Burgos – e a redescoberta do Evangelho, como fonte inspiracional para a vida espiritual. O próprio papa Inocêncio III, ao convidar para o ano de 1215 o Concílio de Latrão, já conclamava para uma renovação da Igreja. E foi exatamente isto que encontraram em Francisco de Assis que, “pelo menos durante dois ou três anos, entre 1207 e 1209, era um irmão penitente” (PRANGENBERG, 1996, p. 29). Lembremos que, para São Francisco, a “penitência” constituiu-se de uma conversão necessária e radical do estilo de vida voltado para o próprio ego, para um modo de vida que continha unicamente Deus como centro de tudo. Foi a partir daí que o santo de Assis “começou a lançar as sementes das virtudes e a percorrer as cidades e vilas pregando com fervor” (2Cel 17). Também, fazendo penitência ele foi impelido a “sair do mundo”, ou seja, sair do século, das coisas que o meio civil lhe apresentava e que, ao seu ver, não agradava a Deus.

O fato notável é que, ao final do século XII, para aqueles que aspiravam uma intensa perfeição de vida cristã, as confrarias transformaram-se “num gênero de vida religiosa livremente escolhida por aqueles que aspiravam a perfeição sem poderem ou quererem abandonar a mundo” (VAUCHEZ, 1995, p.137). Deste modo, partindo de algo até comum para boa parte dos homens que viveram no período medieval, Francisco agregou para junto de si todo um ideal de vida já semeado no coração de muitos, mas agora elevado à perfeição pela inspiração divina atuante nele. Para o poverelo, isso significava sair do meio civil e colocar-se no serviço exclusivo a Deus, seja por um tempo determinado de sua vida, como no caso dos penitentes tradicionais; de modo definitivo, ou seja, aqueles que abraçavam a vida religiosa, ou entravam nos mosteiros como “irmãos conversos” – indivíduos que não faziam votos religiosos, mas viviam junto dos monges, dentro dos mosteiros, fazendo penitência –; ou ainda aqueles que aderiram definitivamente às “confrarias”.

O biógrafo Tomás de Celano assim descreveu este impacto que Francisco de Assis causou nos muitos homens e mulheres que aderiam à vida austera dos “paenitentes”: “Ressoavam por toda parte a ação de graças e o louvor, e por isso foram muitos os que quiseram deixar os cuidados mundanos para chegar ao conhecimento de si mesmos na vida e na escola do santo pai Francisco, caminhando para o amor de Deus e o seu culto. Começaram a vir a São Francisco muitas pessoas do povo, nobres e plebeus, clérigos e leigos, querendo por inspiração de Deus militar para sempre sob sua orientação e magistério” (1Cel, 37). E na Legenda dos Três Companheiros temos: “Homens e mulheres casados, não podendo abandonar a lei do matrimônio, entregavam-se, pelo salutar conselho dos irmãos, a uma penitência mais rigorosa em suas próprias casas. E assim, por meio do bem-aventurado Francisco, adorador perfeito da Santíssima Trindade, a Igreja de Deus foi renovada com três Ordens, conforme prefigurava a reforma das três igrejas. E cada uma destas Ordens, em seu devido tempo, foi confirmada pelo Sumo Pontífice” (LTC, 30).

Após a fundação da primeira Ordem, em 1209, Francisco contava com uma grande leva de homens que saíam como “pregadores itinerantes”, propagando valores e ideais de renovação nos costumes espirituais europeus da época. Os frades serviram de grande atrativo ao movimento penitencial, agora recebedor das orientações e inspirações de Francisco. E a este respeito vale afirmar que a maior parte destes penitentes passaram a aderir ao poverelo e aos seus ensinamentos,

denominando-se verdadeiros “penitentes de são Francisco”, mesmo aparecendo nos documentos oficiais eclesiásticos a designação de “Irmãos e Irmãs da Penitência”. No entanto, nome de “Ordem Terceira de São Francisco” somente lhes foi atribuído no final do século XIII, alguns decênios depois da morte do santo.

Em louvor de Cristo. Amém!


Referências:

ANGELOZZI, G. Le confraternite laicale: un’esperienza cristiana tra medioevo ed età moderna. Brescia: Queriniana, 1978. Fontes Franciscanas: http://centrofranciscano.capuchinhossp.org.br/fontes . Acessado em 10/09/2018, às 10h45.

IRIARTE, Lázaro OfmCap. História Franciscana. Petrópolis: Vozes/ Cefepal: 1985.

PRANGENBERG, Frei Egberto. Francisco entre os seculares: tópicos histórico sociais. Rio de Janeiro: Editora Vozes LTDA, 1996.

SEMERARO, M. La figura del laico nella storia. Credere Oggi, v. 3, n. 81, p. 21-31, 1994.

VAUCHEZ, André. A Espiritualidade da Idade Média Ocidental séc. VIII-XIII. Lisboa: Editorial Estampa. 1995.


 

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