Festa das Chagas de São Francisco: “Francisco traspassado de Amor”

Francisco de Assis quando subiu o rochoso Monte Alverne, com 1.128 metros, cobertos de bosques e vegetação, com suas fendas e repleto de frescor, localizado na Província de Arezzo (atual Itália), estava fazendo sua Quaresma de São Miguel Arcanjo. Ele, permaneceu neste local entre os dias 15 de agosto até 29 de setembro, acompanhado por Frei Leão e Frei Rufino, e neste local teve uma profunda experiência mística, que deu sentido à toda sua busca e itinerário de viver o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, pobre e crucificado.

Neste momento da sua vida, Francisco está com seus 43 anos de idade, fazia por volta de uns 20 anos que ele havia escutado na pequenina Igreja de São Damião, toda em pedaços e escombros a voz do Crucificado-Ressuscitado: “Francisco, vai e restaura a minha casa, pois como vês está toda em ruínas!”. Foi o início de uma longa jornada, uma aventura de herói em busca de encontrar o Cristo pobre e crucificado, na certeza de que o Amor Salvador de Cristo já o havia encontrado e amado! (cf. Fl 3, 12).

Francisco está muito doente, com dificuldade para enxergar, uma úlcera no estômago, muita febre durante a noite, exausto da viagem, bem debilitado e angustiado com a situação da Ordem, diante da incompreensão dos irmãos da proposta de vida a partir do Evangelho. Agora não é Francisco que se dirige a Igrejinha para se encontrar com o Crucificado, mas é o Crucificado quem vem visitar a Francisco em “ruínas”, para restaurar as feridas da sua alma e transfigurá-lo visualmente no próprio Cristo chagado. O Serafim Crucificado, com suas seis asas, pairava no ar, e Francisco extasiado fitando o olhar neste grandioso mistérios, sentia em seu coração uma alternância de sentimentos – alegria e tristeza – , quando começaram a surgir em suas mãos e pés os sinais dos cravos, e seu lado aberto vertendo sangue: Francisco está trespassado de Amor!

Segundo a origem da palavra Serafim, vindo do hebraico saraph, significa queimar, ou seja, os serafins são seres celestiais que permeiam o céu e a terra, são sinais da presença de Deus, e purificam o pecador para que seja Profeta do Senhor (cf. Is 6,6). Francisco faz a profunda experiência de sentir arder seu coração de Amor total, sua alma se incendiar pelo Amor não Amado, todo seu ser mergulhado no Amor Divino, por isso, se entrega integralmente absorto em êxtase ao contemplar tamanha manifestação mística do Serafim Crucificado!

A visita de um Serafim, fagulha do Amor Divino, deixa profundas marcas no corpo de Francisco, chagas nas mãos, nos pés e no lado; tornando a frágil e débil carne em sinal sagrado da manifestação do Amor e da Salvação de Deus.

O que faz ainda o nosso coração arder no caminho de Emaús (cf. Lc 24, 13-35); o que faz ainda a gente sonhar e lutar para concretizar nossos sonhos? Quais os projetos que tenho empregado meu tempo e meus esforços? O que te desinstala a sair de si e ir direção ao outro? Qual o “monte Alverne” que estou subindo em busca de encontrar repostas para minhas dúvidas e questionamentos? Qual o sentido que tenho traçado e permeado a minha vida?

 Vivemos numa sociedade pós-moderna, numa mudança de época, onde tudo o que parecia sólido está se desmanchando pelo ar, novos métodos, novas mentalidade, novas ideologias, novos partidos, e no meio deste mar de informações, nos sentimos náufragos de uma ética a deriva, esmolando migalhas de sentido e de amor.

 Celebrar a Festa da Impressão das Chagas no Seráfico Pai São Francisco de Assis, nos transporta para o cimo do Monte Alverne, contemplando a vista panorâmica da nossa vida, transfigurados por alguns instantes, pela glória majestosa do Deus-Amor Comunhão, para que encontremos n’Ele a força e sentido para ao descermos a planície do cotidiano de nossas vida, possamos realizar gestos de Amor, Misericórdia e compaixão para com nossos irmãos e irmãs sofredores e compadecer com as dores da Ecologia.

Certa vez, retornando a Canindé-CE, com o coração ferido procurando explicações para aquilo que afligia meu pobre coração de jovem, pude me unir a experiência de tantos devotos de São Francisco das Chagas, homens e mulheres de muita fé, que trazem sua vida e história, alegrias e tristezas, diante do Santo Milagroso. Chagando as portas do Santuário Franciscano naquele Sertão Nordestino, olhando para o meu Querido pai Francisco naquela visita tão singular, senti que ele me fitava com seus olhos de ternura e afeto, falando palavras inauditas aos nossos ouvidos, transformava minhas dores da alma com suas chagas de Amor. 

Frei João Antonio Veiga Bizerra, OFM

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