Ano do Laicato – Parte XII: “O franciscanismo como uma das expressões do laicato”

Irmãos e irmãs,
nesse ano em que celebramos o “Ano Nacional do laicato” ofereceremos para você uma série de artigos (12 capítulos) que tratará sobre a vida do cristão leigo na Igreja, ademais,  contribuiremos também numa ótica do carisma franciscano.

Desejamos a você uma boa leitura!

Um grande abraço fraterno.

PAZ e BEM!

Equipe de Comunicação


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– PARTE XII –

Como viviam os leigos no medievo: franciscanismo das origens

Na busca por compreendermos melhor como se dava a relação de São Francisco com os seculares – leigos – é possível notar, logo de início, que o período em questão (sécs. XII-XIII) fora deveras palco de grande efervescência do laicato. Engana-se quem pensa que havia muita “passividade” da parte dos leigos dentro da Igreja. Movimentos surgidos no laicato pululavam por toda a Europa medieval, tanto nas universidades nascentes, quanto nos grupos que, posteriormente, acabaram até mesmo incorrendo em heresias. Serve-nos de confirmação à esta tese a própria relação Igreja-Estado, onde notava-se grande empenho por parte desta em converter, primeiramente os povos bárbaros que ocuparam a Europa entre os séculos IV e V, a fim de alcançar mais espaço e almas para Cristo; depois, em outro momento, aliando-se aos reis europeus na epopeia das Grandes Navegações (séculos XIV-XV) com o intuito de converter novos povos e culturas, ampliando o território de influência. Tudo isto com demonstrando-nos que a relação entre clero e seculares sempre demonstrou-se necessária para a expansão do cristianismo.

Obviamente que em outro contexto e a partir de planos de ação diferenciados das supracitadas alianças “econômico-eclesiais”, ao tratar do período de São Francisco, Vauchez escreve: “Ao longo do século XII, (…) numerosos leigos procuraram formas de vida que lhes permitissem conciliar as exigências de uma existência consagrada a Deus com as que lhes eram impostas pela sua condição de cristãos que viviam no mundo. (…) reivindicavam a possibilidade de acederem a vida apostólica, ainda que permanecendo no seu estado. Entre eles, havia solteiros e havia casados” (VAUCHEZ, 1995:1334-134).

Em sua época, também Francisco de Assis não ficou indiferente aos leigos. Nas Fontes Franciscanas encontramos: “Não somente os homens se convertiam à Ordem, mas também muitas virgens e viúvas, compungidas pelas suas pregações e, seguindo seu conselho, enclausuravam-se nos mosteiros espalhados pelas cidades e aldeias para fazer penitência. (…) Da mesma forma homens e mulheres casados, não podendo abandonar a lei do matrimônio, entregavam-se, pelo salutar conselho dos irmãos a uma penitência mais rigorosa em suas próprias casas. E assim por meio do bem-aventurado Francisco (…) a Igreja de Deus foi renovada com três Ordens (…). E cada uma destas Ordens, em seu devido tempo, foi confirmada pelo Sumo Pontífice” (Legenda dos Três Companheiros, 60). Tão importante e impactante isto fora que algo semelhante encontramos nos textos de Tomás de Celano (1Cel 1, 37), Anônimo Perusino (41) e São Boaventura (4,6). Onde se nota que São Francisco é associado a fundação das três ordens, sendo uma delas exclusivamente para os leigos. Outro fator que merece destaque é o fato de receberem estas o título de Primeira, Segunda e Terceira Ordens, devido ao tempo cronológico das Fundações e não por uma ordem de dignidade.

Vale a pena mencionar que embora a Ordem Terceira tenha sido aprovada somente depois das outras duas, ela foi o segundo grupo a ser iniciado ao redor de São Francisco. E inclusive, há dentre os estudiosos, quem afirme que o movimento Franciscano em seu início fora, na verdade, um grandioso movimento misto: “Allo stesso ordine della Penitenza egli ammete nel 1212 Chiara degli Sfic. ( …) Si crea cosi un immenso movimento, del quale fanno parte chierici e laici, vergini e conjugati, che vivono ed operano nelle situazioni più varie. Per ordinare un tal movimento, su consiglio del Cardinale Ugolino, vengono formati dei gruppi, quello dei minori, e quello delle povere dame. Tutti gli altri rimangono fratelli e sorelIe della penitenza”. (ANDREOZZI, 1975, p. 359).

Os estudos históricos apontam que a partir dos séculos XII e XIII, há uma leva grande de homens e mulheres que se decidiram por “abraçar voluntariamente a ordem dos penitentes, não para a

remissão dos pecados, mas para buscar a perfeição evangélica e para assegurar-se da salvação eterna” (POMPEI, 1991, p. 441). O que configurou uma nova modalidade de consagração, agora não mais classificada por grupos de irmãos conversos, que serviam os Mosteiros sem os votos religiosos como os monges. Mas aqui houve uma novidade: tal modus vivendi “transformou-se num gênero de vida religiosa livremente escolhido por aqueles que aspiravam à perfeição sem poderem ou quererem abandonar a mundo” (VAUCHEZ, 1995, p. 137). Deste modo, podemos afirmar, como o frade Capuchinho Lázaro Iriarte que, é devido à São Francisco, “se não a paternidade como Fundador, ao menos o mérito de haver comunicado uma nova vitalidade, com seu impulso de renovação evangélica, aos núcleos já existentes de irmãos e irmãs da penitência” (IRIARTE, 1985, p. 537) a estas novas comunidades medievais.

Sabemos que, de início, Francisco não se preocupou com uma forma específica de vida ou Regra para estes irmãos terceiros, bastava que vivessem o Santo Evangelho. Deles exigia-se apenas o essencial à vida de cristão batizado. Vivendo “segundo a diversidade de características e influências ambientais, alguns [eram] portadores de uma espiritualidade mais aberta, caritativa para com as pobres e os enfermos; outros, ao invés, [eram] induzidos a um misticismo interior, em estreita ligação com a vida eremítica e reclusa” (GIEBEN, 1981, p. 194), constituíram um novo modo de ser Igreja para a época. Um estilo de vida totalmente diferente, o qual não se ocupando com os moldes do monasticismo claustral, tampouco induzindo o fiel algum trabalho específico como servidor nos mosteiros, caracterizava-se por “uma religiosidade do tipo novo, (…) firmemente ancorada na vida laica: salvar a alma na própria casa, segundo a expressão de São Francisco, no exercício do próprio ofício, no cumprimento dos próprios afazeres cotidianos. (…) Um campo de religiosidade que se distingue, certamente, daquelas Fraternidades puramente laicais, mas somente por motivo de um maior empenho religioso” (GIEBEN, 1981, p. 194).

Deste modo, ao delimitar o que melhor define os irmãos terceiros, precisamos entender “por Ordem Terceira os grupos de irmãos e irmãs que, desde o tempo de São Francisco, formaram fraternidades de vida religiosa retirada da secularidade” (PAZZELLI, 2009, p. 9). A preciosidade disso consiste no fato de Francisco não ter se preocupado com normas e leis rígidas para os leigos, engessando-lhes a vida e dificultando demasiadamente seu caminho de santificação. Em suas “Cartas aos fiéis” esforçou-se por salientar aqueles valores que são básicos aos cristãos: considerando-se a observância dos ensinamentos divinos e das obras humanas, de modo simples e catequético deixou explícito que todos, podendo escolher livremente entre dois caminhos, têm o direito de optar, tanto por facilitar a própria ida para o céu, quanto provocar a condenação eterna.

Quanto à sua relação com a Igreja, merece nota também que, na mesma época, o Papa Inocêncio III demonstrando grande interesse em estruturar e adequar os movimentos laicos – com respaldo do IV Concílio Lateranense, de 1215 – ofereceu aos terceiros uma forma de vida mais definida, concedendo o respaldo e o amparo da Igreja diante das acusações e dos ataques dos hereges; e mesmo do assédio dos próprios membros eclesiásticos que não compreendiam tal estilo de vida. Somemos a isto, a garantia de que os mesmos terceiros franciscanos acabariam por ter garantido o seu direito de não precisar pegar em armas, servir ao exército, exercer trabalhos públicos etc., e isto sobre os cuidados e proteção dos frades. A este respeito nos descreve o capuchinho Lázaro Iriarte: ”A primeira menção oficial dos irmãos da penitencia (…) acha-se na bula de Honório III ao bispo de Rimini (16 de dezembro de 1221), encarregando-o de protege-los contra as autoridades civis que pretendiam força-los a tomar armas, sob juramento, em defesa do município” (IRIARTE, 1995, p. 540).

O Memoriale Propósitum, do Cardeal Hugolino foi outro documento da Igreja que, embora não possuísse teor inteiramente direcionado aos franciscanos, determinava certas questões a serem delimitadas, como serviços civis permitidos aos terceiros e a até mesmo a profissão religiosa dos mesmos. Embora se caracterize por algo de extrema importância para a Ordem da Penitência de São Francisco, isto os tornara praticamente enquadrados no rol dos religiosos, haja vista que “as cidades confiaram-lhes variadas tarefas, desde a distribuição de subsídios caritativos a conventos, pobres e prisioneiros, até a gestão da tesouraria municipal e ao cumprimento de missões diplomáticas pela paz” (VAUCHEZ, 1995: 162).

Por fim, mencione-se o fato de que foi o Papa Nicolau IV foi quem tornou obrigatória assistência dos Frades à Ordem Terceira, medida tomada depois que São Boaventura, em 1257, proibiu os frades de oferecer assistência espiritual aos terceiros por rejeitar as influências que estes podiam exercer sobre os religiosos. Inocêncio IV em 1289 regulamentou a Ordem Terceira à semelhança das ordens religiosas contemporâneas à época, com a Bula Supra Monten. Esta mesma Bula intensificava o controle da Igreja sobre os leigos que adentravam à Ordem Terceira, exigindo fidelidade incondicional, o que acabou por colocá-los ao serviço exclusivo da Igreja. Isto demonstra claramente que “é preciso dar-se conta de que o Carisma Franciscano foi sendo esclarecido e consolidado aos poucos” (PAZZELLI, 2009, p. 10). As primeiras experiências de conversão de São Francisco marcam o início do carisma, mas não significa que este esteja enrijecido, pelo contrário, continua a se desenvolver e se transformar.

Em louvor de Cristo, amém!

Frei Everton Leandro Piotto, OFM


Referências

ANDREOZZI, T.O.K, G. San Bonaventura e I’ordo poenitentiae. In. Miscellanea Francescana. Roma: 1975.

VAlCHEZ, A. A Espiritualidade da Idade Média Ocidental sec. VIIIXIII. Lisboa: Editorial Estampa. 1995.

ANDREOZZI, To.R.G. San Bonayentura e l’ordo poenitentiae. In. Miscellanea Francescana: Roma. 1975.

IRIARTE, OfmCap, L. História Franciscana. Petropolis: Vozes/CEFEPAL. 1985.

POMPEI, OFMConv. A. La “Supra Montem” de Niccolo IV e i rapporti tra Francesco e il suo “Terz’Ordine”. In. Miscellanea Francescana: Roma, 1991.

GIFBEN, S. Confraternite e Penitenti Dell’area r;rancescana. In. Francescanesimo e Vita Religiosa dei Laici nel ‘200. Atti dell VIIIº Convegno lnternazzona’le. Assisl, 16-18 ottobre 1980. Societá Internationale de Studi Francescani: Uniyersita Degli Studi de Perugia. Assis. 1981.

PAZZELLI, R. São Francisco e a Ordem Terceira: O movimento penitencial pré-franciscano e franciscano. Santo André-SP: Editora Mensageiro de Santo Antônio, 2009.


 

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