Fé e Política: “A história na perspectiva das minorias excluídas” – Parte II

Irmãos e irmãs,
apresentaremos uma série de pequenos textos elucidativos acerca da História do Brasil, na perspectiva da Fé e Política, contada sob o olhar dos derrotados… Boa leitura e boa reflexão!

PAZ e BEM!

Equipe de Comuicação


PARTE I 


– PARTE II –

Formação Social e Cultural: desigualdade e medo

Analisamos que a formação social e cultural do Brasil deu-se, ao longo do tempo, a partir da articulação de práticas, costumes e saberes de diferentes povos, bem como, da tomada de medidas pelo ‘pau no lombo’, para que o cidadão fosse educado e se submetesse aos interesses e caprichos dos senhores da Coroa, dentre os quais se destacam pelos sofrimentos, pelas censuras e pela cultura do baixar a cabeça, os indígenas e os africanos. Contudo, essa articulação não ocorreu de modo “harmônico”, como nos sugere Gilberto Freyre outrora em sua produção sociológica: casa grande e senzala. A democracia racial proposta por este autor não se revela, de fato, na realidade brasileira; ao contrário, profundas desigualdades marcam as relações sociais no país. Por isso a grande dificuldade de inclusão e de ascensão social de indígenas e afrodescendentes na sociedade brasileira resulta de um processo histórico pautado em raízes etnocêntricas.

Com efeito, a cultura brasileira em sua essência seria composta por uma diversidade cultural, fruto dessa aproximação que se desenvolveu desde os tempos da colonização, a qual não foi, necessariamente, um processo amistoso entre colonizadores e colonizados, entre brancos e índios, entre brancos e negros. Se é verdade que portugueses, indígenas e africanos estiveram em permanente contato, também é fato que essa aproximação foi marcada pela exploração e pela violência impostas a índios e negros pelos europeus colonizadores, os quais a seu modo tentavam impor seus valores, sua religião e seus interesses. Porém, ao retomarmos a idéia de cultura, tema da nossa análise crítica, podemos afirmar que, apesar desse contato hostil num primeiro momento entre as etnias, o processo de mestiçagem contribuiu para a diversidade da cultura brasileira no que diz respeito aos costumes, práticas, valores, entre outros aspectos que poderiam compor o que alguns autores chamam de caráter nacional.

Mesmo com leis claras contra atos racistas, é possível afirmarmos a existência do preconceito de raça na sociedade brasileira, no transporte coletivo, na escola, até mesmo no ambiente de trabalho. Isso não significa que vivamos numa sociedade racista e preconceituosa em sua essência, mas sim que esta carrega ainda muito de um juízo de valor dos tempos do Brasil colonial, de forte preconceito e discriminação. Lembramos, aqui, da reflexão de “Cidania a Porrete” que nos mostra que é constante e costumeira a agressão como forma de se educar o indivíduo.

Além disso, é preciso considerar que a escravidão trouxe consequências gravíssimas de ordem econômica para a formação da sociedade brasileira, uma vez que os negros (pobres e marginalizados em sua maioria) até hoje não possuem as mesmas oportunidades, criando-se uma enorme distância entre as realidades sociais. Como sugere o antropólogo Darcy Ribeiro, mais do que preconceitos de raça ou de cor, têm os brasileiros um forte preconceito de classe social.

Ainda mais, o Brasil da diversidade cultural e social é, ao mesmo tempo, o país da desigualdade. Por isso tudo é importante que, ao iniciarmos um debate, possamos ter um senso crítico mais aguçado, tentando compreender o processo histórico da formação social do Brasil e seus desdobramentos no presente para além das versões oficiais da história, sempre vista pelo lado dos dominadores.

Dessa maneira, observamos que o Brasil na formação de seu sistema social, bem como na formação de seus “cidadãos” é o pais (pela roupagem dos herdeiros da Coroa) do preconceito, do nepotismo, das chacinas, das favelas, das desigualdades, das injustiças, dos políticos que não sabem perder as eleições, das redes de mídia com participação que ludibriam o povo contra o diferente, dos coronéis que calam e subornam jornais, da maior floresta do mundo sendo vendida e entregue aos estrangeiros, dos pastores milionários que extorquem os fiéis ignorantes, da saúde pública falida, da educação falida, das empresas públicas falidas, das autoridades que queimam índios por diversão e que abusam do poder, de juiz que usa do seu cargo de forma partidária para punir os que não pensam como ele, das leis absurdas aprovadas na calada da noite (que tiram direitos trabalhistas), de centenas de atrocidades e perseguições que são direcionadas a todo tipo de minoria excluída da nossa Federação Brasil. Mas nada disso parece ter importância. Afinal, temos dança, praia, sol, pão, circo e o mais importante: somos o povo que tem medo do “pau-brasil”.

Frei Carlos Eduardo de Sousa, OFM

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