6º ano do Pontificado do Papa: “Francisco, construtor de pontes a caminho das pessoas”

Há 6 anos da eleição do Papa Francisco, o Vatican News entrevista o diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé, Alessandro Gisotti, num amplo diálogo que repercorre alguns dos principais momentos desse Pontificado: atenção aos migrantes, empenho pela paz, homilias da Casa Santa Marta, binômio diálogo-amizade com líderes religiosos, a proteção dos menores, entre outros


Cidade do Vaticano – A serenidade, a atenção às pessoas e ao próximo, a escuta e a sinodalidade são algumas das palavras-chave do Pontificado do Papa Francisco, através da reflexão do diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé, Alessandro Gisotti. Há 6 anos da eleição de Francisco, naquele 13 de março de 2013 ao saudar os fiéis da Praça São Pedro e de todo o mundo da sacada central da Basílica Vaticana, o Pontífice começou aquele que ele mesmo definiu logo como “um caminho de fraternidade, de amor, de confiança”.

O testemunho das suas palavras veio já alguns meses depois com a visita aos migrantes em Lampedusa (Itália): uma viagem, aquela de 8 de julho de 2013, que “não era programada”, sentindo simplesmente que deveria “ir”, como ele mesmo teve a oportunidade de explicar depois. Uma solicitude que prossegue inalterada 6 anos depois, como explica o porta-voz vaticano.

Gisotti – O Papa mostra que os migrantes são pessoas e não cifras. E o faz porque tem uma atenção constante sobre eles, enquanto vemos que, infelizmente e frequentemente, a mídia se ocupa de migrantes quando tem uma crise grave, o naufrágio de um navio ou situações de emergência por causa de uma guerra. Além da sua primeira viagem a Lampedusa (Itália), seguiram muitíssimos gestos de proximidade aos migrantes. Inclusive, precisamente nas viagens, pensemos no campo de refugiados de Lesbos (Grécia) até chegar à atualidade, ao Marrocos: o Papa, daqui a poucas semanas na sua viagem apostólica, vai se dirigir também a um centro da Caritas para os migrantes. Depois, inclusive na viagem sucessiva, aquela à Bulgária e República da Macedônia do Norte, será realizado um momento de proximidade aos migrantes, pois vai visitar um campo de refugiados.

Francisco honra o nome que leva

A abertura da Porta Santa em Banghi (República Centro-Africana), a reconciliação na Colômbia, os Rohingya na Ásia: são faces diversas do empenho do Papa pela paz?

Gisotti – Absolutamente. Francisco, sem dúvida, honra o nome que leva. Obviamente quando, 6 anos atrás teve a eleição, todos fomos surpreendidos por este nome “Francisco”, Francisco de Assis, o homem da paz, o Pobrezinho que tentou com a esperança contra a esperança sempre a forma do diálogo. Pensemos também no encontro com o sultão Al-Kamil Al-Malek que foi evocado ultimamente na viagem aos Emirados Árabes. Então, Francisco honra o seu nome, mas depois também o seu ministério: Pontífice, construtor de pontes. Às vezes, nos esquecemos dessa dimensão própria dos Papas. 

“Francisco, realmente, como tantas vezes vimos não somente com palavras, mas talvez ainda mais com os gestos, lá onde há muros, derruba os tijolos para construir pontes que passam no meio. Acredito que essa seja uma constante do Pontificado, que continuamos a ver todo dia.”

Homilias da Santa Marta: coração do Pontificado

O que representam as homilias das missas matinais na Casa Santa Marta neste Pontificado?

Gisotti – Para mim, são o coração do Pontificado porque ali o Papa encontra o Povo de Deus no momento fundamental para um sacerdote, para um bispo – o Papa é o bispo da diocese de Roma. Através do encontro com a Eucaristia e com os fiéis nascem essas homilias que são um campo extraordinário, porque se vamos ver depois os grandes documentos do Pontificado, nota-se como frequentemente invocam ou são diretamente inspirados nas homilias de Santa Marta. Penso que, realmente, depois de 6 anos, se possa dizer que essa é uma das coisas mais bonitas, mais novas: é exatamente o coração do Pontificado!

Binômio diálogo-amizade

A amizade do Papa com o Grande Imame de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyib e aquela com o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, demonstra como o diálogo esteja caracterizando o empenho de Francisco?

Gisotti – O Papa Francisco, desde os primeiros passos do seu Pontificado, nos falou da “cultura do encontro” que coloca em prática, antes de tudo, o tema da amizade. Eu vi, por exemplo, com grande emoção, a amizade com o Grande Imame Al-Tayyib, já que eu estava presente em Abu Dhabi. 

“Vi realmente como os dois se procuravam inclusive na proximidade, cientes de que a assinatura da ‘Declaração Comum sobre a Fraternidade Humana’ fosse um gesto profético e corajoso do qual, certamente, já recolhemos os frutos, mas os recolheremos também no futuro.”

Por isso, certamente o tema do diálogo é algo que está no coração do Papa e o vê sempre com este binômio diálogo-amizade. Nunca é um diálogo como uma finalidade específica, mas é um diálogo que nasce do encontro, e isso podemos dizer certamente sobre Al-Tayyeb, mas também sobre tantos outros líderes religiosos e não somente.

Conversão dos corações e proteção aos menores

O empenho pela proteção dos menores também marca este Pontificado: sobre o encontro realizado há pouco no Vaticano, foram feitas críticas em relação à falta de frutos concretos. Quais os resultados efetivos?

Gisotti – Esse foi um encontro necessário. Eram em muitos a ter dúvidas que fosse o caso oportuno de manter esse encontro, enquanto o Papa, a esse respeito, deu demonstração de coragem e, inclusive, na minha opinião, de uma coragem profética porque, pela primeira vez – diante de um escândalo terrível que coloca em risco não somente a credibilidade, mas, por alguns aspectos, a própria missão da Igreja – quis convocar todos os presidentes dos episcopados. Então, o Papa quis, antes de tudo, dizer que para um problema global é necessário dar uma resposta global. Depois, obviamente, tem o tema da concretude, das medidas concretas. Nesse sentido, bem ao final do Encontro sobre a Proteção dos Menores, foi anunciado o, assim chamado, follow-up, isto é, os passos que devem seguir. Então, a publicação de um Motu Proprio, a publicação de um manual da Congregação para a Doutrina da Fé e toda uma série de regulamentos e, ainda, a iniciativa das “forças-tarefa”, isto é, especialistas que possam ajudar as Conferências Episcopais a atuar em atividades de proteção dos menores. 

“Também é importante dizer que, para Francisco, a coisa fundamental – e já vimos – é a conversão dos corações que nasce da escuta das vítimas.”

O caminhar da Igreja, segundo o Papa Francisco

O Papa convocou três Sínodos e mudou o funcionamento: com essas escolhas, em que direção está conduzindo a Igreja?

Gisotti – Ele tem esta visão de uma Igreja “em saída” e de uma Igreja “hospital de campanha”. A Igreja em saída pressupõe que se caminhe, toda. E “sinodal” quer dizer caminhar juntos. Esse é o espírito com que Francisco está vivendo esta sua dimensão também de pastor, como disse logo no início do seu Pontificado, 6 anos atrás, com o povo, diante do povo, mas, também, em meio ao povo, atrás do povo, como no fundo um bom pastor deveria sempre fazer com o seu rebanho! E, depois, a Igreja “hospital de campanha”. A gente viu com o Encontro sobre a Proteção dos Menores, uma Igreja que tem a coragem de se inclinar sobre as feridas das mulheres e dos homens do nosso tempo. 

“É bonito pensar – e essa é um pouco a visão de Francisco – que a Igreja não seja somente um farol que ilumina, parado, distante, mas uma tocha que ilumina e o faz caminhando com o Povo de Deus.”

Um homem em paz

Uma recordação, uma imagem, uma reflexão do Papa que te marcou nestes anos, mas também nestes dois meses e meio como diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé:

Gisotti – É a sua serenidade. Nós, obviamente, vivemos e não podemos esconder – o próprio Papa não esconde – um momento muito delicado, em especial, justamente pelo escândalo terrível dos abusos. Todavia, mesmo com essa grande consciência e também com essa coragem em enfrentar tal situação, Francisco não perde a calma, a serenidade. E realmente – vendo-o inclusive nos momentos privados, me tocou, por exemplo, vê-lo bem próximo rezando – se vê realmente um homem em paz. É uma paz que obviamente não vem do mundo, mas que provém de Deus. Inclusive em relação a mim, num momento de muitas dificuldades objetivas diárias, o Papa pessoalmente me disse e em mais de uma oportunidade: “Não te deixe dominar pelo desânimo, fica sereno”. Ele diz como pai, em modo muito paterno, e me dá também a força e a coragem para seguir adiante, com um espírito de esperança, sabendo exatamente que o Santo Padre vive com tão grande força e serenidade este momento e acaba doando-as também a nós.


O aniversário do pontificado, olhando para o essencial

O sexto aniversário da eleição vê o Papa Francisco comprometido em um ano cheio de importantes viagens internacionais, marcado no início e no final, por dois eventos “sinodais”: o encontro para a proteção de menores realizado no Vaticano em fevereiro passado, com a participação dos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, e o Sínodo especial sobre a Amazônia, que será celebrado – também no Vaticano -, em outubro próximo. De notável impacto a recente viagem aos Emirados Árabes que  viu o Bispo de Roma assinar uma Declaração conjunta com o Grande Imame de Al-Azhar. Um documento que se espera possa ter consequências no campo da liberdade religiosa. O tema ecumênico prevalecerá nas próximas viagens à Bulgária e depois à Romênia, enquanto a desejada, mas ainda não oficializada viagem ao Japão, poderá ajudar a recordar a devastação causada pelas armas nucleares, como advertência para o presente e para o futuro da humanidade que experimenta a “terceira guerra mundial em pedaços”, da qual o Papa fala frequentemente.

Mas um olhar ao ano apenas transcorrido não pode ignorar o ressurgimento do escândalo dos abusos e das divisões internas que levaram o ex-núncio Carlo Maria Viganò, em agosto passado, precisamente quando Francisco celebrava a Eucaristia com milhares de famílias em Dublin, repropondo a beleza e o valor do matrimônio cristão, a pedir publicamente a renúncia do Papa por causa da gestão do caso McCarrick. Diante dessas situações, o Bispo de Roma pediu a todos os fiéis do mundo que rezassem o Terço todos os dias, durante todo o sucessivo mês mariano de outubro de 2018, para unirem-se “em comunhão e penitência, como povo de Deus, pedindo à Santa Mãe de Deus e a São Miguel Arcanjo para protegerem a Igreja do diabo, que sempre visa nos separar de Deus e entre nós”. Tal pedido tão detalhado não tem precedentes na história recente da Igreja. Com suas palavras e o apelo ao povo de Deus para rezar para manter a unidade da Igreja, Francisco nos fez entender a gravidade da situação e ao mesmo tempo expressou a cristã consciência de que não existem remédios humanos capazes de assegurar um caminho de saída.

Mais uma vez, o Papa chamou ao essencial: a Igreja não é formada por super-heróis (nem mesmo por super-papas) e não avança com a força de seus recursos humanos ou estratégias. Sabe que o maligno está presente no mundo, que existe o pecado original, e que para nos salvarmos, precisamos da ajuda do Alto. Repeti-lo não significa diminuir as responsabilidades pessoais dos indivíduos e nem mesmo as das instituições, mas situá-las em seu real contexto.

“Com esta solicitação de intercessão” – estava escrito no comunicado vaticano com o pedido do Papa para a oração do Terço em outubro passado – “o Santo Padre pede aos fiéis de todo o mundo para rezar para que a Santa Mãe de Deus coloque a Igreja sob seu manto protetor: para preservá-la dos ataques do maligno, o grande acusador, e ao mesmo tempo torná-la cada vez mais consciente dos abusos e erros cometidos no presente e no passado”.

No presente e no passado, porque seria um erro “descarregar” sobre aqueles que vieram antes de nós as culpas e apresentar-nos como “puros”. Também hoje a Igreja deve pedir a Alguém para ser libertada do mal. Um dado de fato que o Papa, em continuidade com seus antecessores, recorda constantemente.

A Igreja não se redime sozinha dos males que a afligem. Também do horrível abismo dos abusos sexuais cometidos por clérigos e religiosos, não se sai em virtude de processos de auto-purificação, muito menos confiando-se a quem se investiu no papel de purificador. Normas sempre mais eficazes, responsabilidade e transparência são necessárias, na verdade indispensáveis, mas nunca serão suficientes. Porque a Igreja, recorda-nos hoje o Papa Francisco, não é auto-suficiente e testemunha o Evangelho a muitos homens e mulheres feridos do nosso tempo, precisamente porque também ela se reconhece como mendigo de cura, necessitando de misericórdia e de perdão do seu Senhor. Talvez nunca como no conturbado ano que passou, o sexto do seu pontificado, o Papa que se apresenta como “um pecador perdoado”, seguindo o ensinamento dos Padres da Igreja e de seu imediato predecessor Bento XVI, testemunhou este dado essencial, e mais do que nunca atual da fé cristã.

Fonte: vaticannes.va

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