Resgate histórico: Frei Roque Biscione, OFM, faz explicação acerca da História da Província de Nápole

A fim de corroborar com os fatos outrora descritos aqui, valhamo-nos dos documentos escritos como fonte de informações acerca do passado. Citaremos, para tanto, alguns textos de Frei Roque Biscione, OFM, um dos dez primeiros missionários italianos fundadores de nossa Custódia. O mesmo ocupou também a função de primeiro responsável pelo então denominado Comissariado, sendo designado pela Província. Frade versado nas palavras, muito dedicado e com grandiosa expressão poética, deixou-nos diversos escritos, dentre os quais a maioria em versos (poemas e sonetos).

O religioso dedicou-se em escrever uma breve História da Província do Sagrado Coração de Jesus de Nápoles, atendo-se a documentos e crônicas encontrada até então parecia desejar que o descobríssemos anos depois. Transcrevemos aqui alguns trechos de seus escritos, os quais nos servem de testemunho acerca do passado de nossa Província mãe, além de confirmação histórica dos relatos abordados nos artigos anteriores.

Quanto às interferências externas na Província “Terrae Laboris”

  1. Em 1656, a peste:

Frei Roque Biscione, OFM transcreveu uma parte do testemunho que os frades deram diante do flagelo da Peste Negra. O escrito narra o momento a partir de quando as autoridades de Nápoles, diante da peste, pedem ajuda de voluntários para trabalharem no trato com os doentes, o risco iminente de contrair a doença era claro, mas ainda assim os frades deram seu exemplo de vida e doação em favor do próximo. O conteúdo transcrito por ele trata-se de um texto escrito em latim, da “Chronica Provinciae Reformatae Terrae Laboris”, escrita por Pe Frei Antônio de São Lourenço (1640):

“[O ministro] Não conseguindo refrear o fervor de tantos frades, achou conveniente por, em algumas vasilhas, as sortes daquela multidão. Quem fosse sorteado primeiro, primeiro seria enviado para servir aos doentes. (…) Assim, completou-se o número daqueles que deviam ser enviados ao serviço dos doentes. Um por um, com toda humildade, se acusa [diante de toda a fraternidade reunida] de todas as faltas passadas pedindo perdão publicamente e de todo coração. Cada um pede ao confrade amigo que eleve orações pois julga-se indigno de ser destinado a uma tarefa tão admirável. Enfim, o ministro Provincial, com os olhos rasos de lágrimas, dirige-lhes um sermão tão devoto e fervoroso e inspirado, que todos afirmam o Espírito Santo ter falado por meio dele. (…) Vão para o Lazaretto: cada um é destinado para um serviço ou do corpo ou da alma conforme suas forças e atitudes. (…) Enfim, eles mesmos tomados pelo mesmo contágio, oprimidos pela mesma doença, invadidos pela mesma peste, da qual se poderia dizer: ‘não poupou ninguém’, sucessivamente, um após o outro, dentro de quinze dias (…), partem, como piedosamente devemos crer, em demanda, por um caminho reto, de seu Diletíssimo esposo.” (Trad. de Frei Roque Biscione, ofm)

  1. Sobre o domínio napoleônico, que assombrou a Provincia “Terrae Laboris” por um período histórico tem-se:

Por supressão napoleônica entendemos o fato e os odiosos acontecimentos quando os frades foram afastados e expulsos de suas Casas, os bens e os conventos e respectivas propriedades foram encampados pelo poder civil. Isso aconteceu no ano 1809. (…) Os efeitos da supressão napoleônica foram desastrosos para a vida religiosa, desnorteou as consciências, relaxou a disciplina, destruiu o sentido da obediência, diminuiu o número dos frades. Este vendaval durou de 1809 à 1815, ou seja, até a queda de Napoleão (Waterloo). (Frei Roque Biscione, OFM)

  1. Sobre o poder Borbônico, de Vitório Emanuel II, o franciscano afirma:

Outra dolorosa supressão não menos grave da napoleônica (…). Com a empresa de José Garibaldi o Reino de Nápoles passou do poder Borbônico ao Reino de Itália, de Vitório Emanuel II. Nesta oportunidade com Lei de 7 de julho de 1866, os conventos tornaram-se propriedade estadual e os frades foram mais uma vez expulsos de seus conventos. (…) Após alguns anos de total desorientação os frades começaram a voltar à suas Casas religiosas resgatando e comprando o que já fora propriedade da Ordem. (Frei Roque Biscione, OFM)

  1. Naquilo que se refere à Reforma Leonina (interferência eclesiástica na Província), fator importantíssimo para a História da Ordem dos Frades Menores, pois unifica os diferentes ramos da Observância, temos:

Por União Leonina entende-se a disposição do Papa Leão XIII que, com a Bula “Felicitate quandan” uniu as Famílias Franciscanas Napolitanas (1897) em duas Províncias que tomaram o nome de: 1) Província de Terra do Trabalho de São José da Cruz; 2) Província de Terra do Trabalho de São “Giacomo” della Marca. Essa União tornou-se efetiva dois anos depois da “Bula Pontifícia”, isso é, em 1899. (Frei Roque Biscione, OFM)

Tal divisão manteve-se apenas por doze anos, como já citamos aqui (até 1911), quando houve oura subdivisão, que gerou outras seis províncias: São Jacomo Della Marca (da Observância), São João José da Cruz (Alcanarinos), São Pedro Ad “Aram” (Reformados), Sana Maria Mater Domini, Sana Maria das Graças de Benevento, Santa Maria degli Angeli di Nocera.

Somente após a Segunda Guerra Mundial (1942), quando o Papa Pio XII, com um “Motu Proprio” reorganizou-as em três Províncias: Materdomini e Santa Maria degli Angeli uma só; Benevento outra; e as napolitanas São Pedro ad “Aram”, Santa Maria la Nova e Santa Luzia ao Monte formaram a Província Franciscana do Sacratíssimo Coração de Jesus.

As narrativas de Frei Roque elucidam muito de nossa História Custodial e levam-nos a refletir sobre diferentes elementos históricos sobre os quais ainda pairam muitas dúvidas e curiosidades. Continuaremos no próximo capítulo sobre os seus escritos a fim de compreendermos melhor quem eram os ramos de família franciscana existentes antes da unificação de Pio XII: Alcantarinos, Reformados e Observantes.

Recordar o passado é nos lembrar sempre que temos uma alma, e esta pulsa em nós desejosa pelo futuro, mas sempre extasiada com o presente!

PAZ e BEM!

Frei Everton Leandro Piotto, OFM




 

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