Mensagem do Custódio em ocasião da Páscoa

“Domingo da Ressurreição de Jesus”

“À Vítima pascal ofereçam os cristãos sacrifícios de louvor. 

O Cordeiro resgatou as ovelhas: Cristo, o Inocente, reconciliou com o Pai os pecadores.

A morte e a vida travaram um admirável combate: Depois de morto, vive e reina o Autor da vida.

Diz-nos, Maria: Que viste no caminho? Vi o sepulcro de Cristo vivo e a glória do Ressuscitado. Vi as testemunhas dos Anjos, vi o sudário e a mortalha. Ressuscitou Cristo, minha esperança: precederá os seus discípulos na Galileia.

Sabemos e acreditamos: Cristo ressuscitou dos mortos: Ó Rei vitorioso, tende piedade de nós.”

(Sequência da Páscoa)

A Páscoa como evento Trinitário: nós, com toda a criação, somos salvos e entregues ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo.

Talvez, por falta de compreensão e pela insuficiente participação na liturgia, os cristãos perderam a visão da revelação como história da salvação e, em conseqüência, de Deus como Mistério Trinitário. Faz-se importante celebrar a Páscoa do Senhor como oportunidade de colocá-la dentro de seu lugar próprio, no evento trinitário. E assim, nos encher de entusiamo, nas lutas de cada dia, em nossas comunidades.

A leitura meditada da Oração Eucarística IV, adaptação da anáfora bizantina de São Basílio Magno, pode ser de grande ajuda para o preparo e entendimento do sentido trinitário da Páscoa, presente na teologia e celebração desde as primeiras gerações cristãs: a contemplação do Pai, bom e fonte de vida, a história da salvação desde a criação até o envio de seu Unigênito como salvador e o envio do Santificador que levará à perfeição a obra de Cristo, etc. Não se deve separar o evento da Ressurreição de Cristo do Mistério Trinitário.

A fé da Igreja em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, se desenvolve a partir do Evento Pascal. A Páscoa é o cume da ação de Deus, que se revela em suas ações. A comunidade apostólica compreendeu, desde muito cedo, que na encarnação, vida pública, morte e ressurreição de Jesus, está em ação não somente o Filho de Deus feito carne, que por fidelidade ao Pai humilhou-se a si mesmo até a morte de cruz e ofereceu a si mesmo pelos pecadores. Também o Pai que doou o seu Filho para que o mundo seja salvo por meio dele e não permitiu que ele conhecesse a corrupção, mas o ressuscitou e exaltou à sua direita, dando-lhe o nome que está acima de todo nome, e o Espírito Santo, amor pessoal do Pai e do Filho, no qual Jesus Cristo ofereceu a si mesmo e que morrendo o entregou ao Pai, e que o Pai, ao ressuscitá-lo, o restituiu para que Ele o comunicasse a quem vier a ele e o levasse ao mundo inteiro.

A partir da Páscoa, também, toda a história da salvação contida no Primeiro Testamento, desde a criação, vem relida como obra do Pai, que tudo criou e sustenta por meio de Cristo, sua Palavra viva e em vista dele, e em cujo Espírito vagava sobre as águas primordiais, que nEle falou por meio dos profetas, e na plenitude dos tempos, falou a nós no Filho, feito homem por obra do Espírito Santo.

Na Ressurreição de Jesus, se realiza a nova criação, onde são feitas novas todas as coisas. Inclusive o futuro vem compreendido como obra da Trindade, quando o Pai terá submetido a Cristo todas as coisas, e será infundido o seu Espírito sobre toda carne e sobre toda realidade criada. Quando, pois, o Cristo entregará o reino a Deus Pai e ele será tudo em todos.

Ao ser restituído o sentido trinitário à Páscoa, conseqüentemente, se passa da adoração contemplativa para a ação solidária contemplativa. Ou seja, a Igreja redescobre seu discipulado e sua missão.

“Tu (Pai santo, Deus da aliança e da paz), chamaste e fizeste sair Abraão da sua terra para constituí-lo Pai de todos as gentes. Suscitaste Moisés, para libertar o teu povo e guiá-lo para a terra prometida. Na plenitude dos tempos, mandaste teu Filho, hóspede e Peregrino no meio de nós, para redimir nos do pecado e da morte; e deste o teu Espírito, para fazer de todas as gentes um só povo novo, que tem como fim o teu reino, como condição a libertação dos teus filhos, como estatuto o preceito do amor.”                     

(Lumen gentium 9)

Não apenas celebrar a memória no louvor, mas atualizar a memória no serviço. A contemplação leva à comunhão no Deus trino e uno, nos torna discípulos e imitadores do Filho, movidos pelo Espírito Santo, instrumentos do Reino de justiça e paz, defendendo e promovendo a integridade da criação, acreditando e lutando por um outro mundo possível.

Cristo falando, após a ressurreição:

“Quebrei os cadeados das portas,

As minhas correntes se tornaram incandescentes até derreter,

Nada mais me aparece aprisionado

Porque eu era a chave de todas as coisas.

Fui ao encontro de todos os meus aprisionados para libertá-los

Para que ninguém mais seja nem encarcerado, nem carcereiro.”                    

(Odes de Salomão, sec. II)

O Mistério da Trindade celebrado é o mesmo Mistério da Trindade a ser vivido. O grande dom do Senhor ressuscitado é para nós fonte de vida e estímulo na caminhada comunitária.

“Ó Deus, que, realizando a última vontade do vosso Filho, não cessais de reunir no Espírito Santo pessoas de todas as nações para formar o vosso povo, concedei que a vossa Igreja seja fiel à sua missão, cainhando sempre com toda a família humana, renovando-a no Cristo como fermento e alma para transformá-la em família de Deus.”(Missal Romano, Missas e orações para diversas necessidades, Pela Santa Igreja, B.)

A Boa nova da Ressurreição

“No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predileto de Jesus e disse-lhes: ‘Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde O puseram.'”

“Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.”                                

(Jo 20,1-9)

O Evangelho do Domingo de Páscoa e os sucessivos do tempo Pascal, e a Leitura testemunhal dos Atos dos Apóstolos, descreve a primeira Comunidade Cristã, organizada, solidária e missionária, nutrida e fortalecida pela presença do Senhor ressuscitado e pela vinda do Espírito Santo. Trata-se dessa comunidade de homens e mulheres que se converteram e aderiram a Jesus e que, a cada dia, inseridos no mundo e na história, são convidados a manifestar a sua fé.

O texto de hoje, começa com a indicação teológica: “no primeiro dia da semana”. O começo de um novo tempo, uma nova criação, a Páscoa sem fim, o tempo do homem novo, que nasce a partir do Jesus histórico e ressuscitado. O evangelista escolhe alguns personagens para  descrever o ânimo da primeira comunidade, abalada pela visão da cruz e da morte do Senhor e, como nova humanidade, descobrindo a novidade da ressurreição.

Destaca-se a figura de Maria Madalena: primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, quando o sol ainda não tinha nascido, movida pelas marcas na alma provocadas pelo discipulado atento e amoroso. Representante da nova comunidade que nasceu, testemunha da cruz, da doação até a morte, por não se afastar do mestre, dá início a grande proclamação de que a morte não venceu e que Jesus está vivo. É seu testemunho que dispara a correria que vai culminar com a experiência do encontro com o Ressuscitado.

Dois discípulos são convocados para serem testemunhas, além da Madalena, e, assim como o dia desperta a vida adormecida, vão despertar a comunidade, que não mais esperam passivamente pelos acontecimentos, mas correm ao túmulo de Jesus: Simão Pedro e o “outro discípulo” (apresentado no Quarto Evangelho como modelo ideal do discípulo). João coloca, aliás, estas duas figuras lado a lado em várias circunstâncias (na última ceia, é o “discípulo amado” que percebe quem está do lado de Jesus e quem O vai trair – cf. Jo 13,23-25; na paixão, é ele que consegue estar perto de Jesus no átrio do sumo sacerdote, enquanto Pedro O trai – cf. Jo 18,15-18.25-27; é ele que está junto da cruz quando Jesus morre – cf. Jo 19,25-27); é ele quem reconhece Jesus ressuscitado nesse vulto que aparece aos discípulos no lago de Tiberíades – cf. Jo 21,7). Nas outras vezes, o “discípulo amado” levou sempre vantagem sobre Pedro. Aqui, isso irá acontecer outra vez: o “outro discípulo” correu mais e chegou ao túmulo primeiro que Pedro (o fato de se dizer que ele não entrou logo pode querer significar a sua deferência e o seu amor, que resultam da sua sintonia com Jesus); e, depois de ver, “acreditou” (o mesmo não se diz de Pedro).

Descreve-se, assim, através destas figuras, o impacto produzido nos discípulos pela morte de Jesus e as diferentes disposições existentes entre os membros da comunidade cristã nascente. Os que, como Pedro, vêem a morte como fracasso e se recusam a aceitar que a vida nova passe pela humilhação da cruz (Jo 13,6-8.36-38; 18,16.17.18.25-27; cf. Mc 8,32-33; Mt 16,22-23), e os que, como o “outro discípulo”, estão sempre próximos de Jesus, os que fazem a experiência do amor de Jesus; por isso, correm ao seu encontro de forma mais decidida e “percebem” aquelas coisas que passam despercebidas aos outros.

O evangelista apresenta no “outro discípulo”, a imagem do discípulo ideal, que está em sintonia total com Jesus, que corre ao seu encontro com um total empenho, que compreende os sinais e que descobre que Jesus está vivo. Ele é o exemplo do Homem Novo, recriado por Jesus.

Frei Flaerdi Silvestre Valvassori, OFM

Custódio da Custódia Franciscana do Sagrado Coração de Jesus

Fonte: Dehonianos.org

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