Parte II – A Igreja Católica no Brasil nas décadas de 20, 30 e 40

II – Novos ares para a Igreja no Brasil: um discurso ideológico social, a Ação Católica

Assistiremos a uma época de verdadeira ebulição de ideologias e de ações doutrinárias movimentando a intelectualidade nacional. O panorama católico no país se configurava da seguinte maneira:

No censo demográfico nacional de 1940, mais de 95 por cento dos 41.236.315 habitantes do país declararam-se católicos; os protestantes atingiram 2,6 por cento e a fração restante distribuiu-se entre judeus, budistas, muçulmanos, espíritas, incréus (87.000) e sem religião declarada (101.000). De um modo geral, os brasileiros consideram-se “religiosos” e verdadeiros católicos, ainda quando interpretem a seu modo a religião; muitos deles sentir-se-iam ofendidos se lhes fosse negada a categoria de católicos ou se os confundissem com “materialistas”, “descrentes” ou “anti-religiosos”. (AZEVEDO, 2002, p. 31)

Desse modo, nota-se significativa força da Igreja Católica neste período. A transformação que seguirá a partir daí resultarão no incentivo da vinda de missionários para o Brasil, os quais auxiliarão tanto ao Governo, quanto à hierarquia no que se refere aos benefícios e soerguimento da bandeira cristã moderna e do desenvolvimento social a ser implantado como meta governamental e religiosa. Sobre isto pode-se dizer que,

De que a nossa gente carece de conhecimentos religiosos, é verdade que não admite contestação. E a queixa é de toda parte. Tanto o roceiro como o homem de letras, o vicentino ou o indigente, a mulherzinha piedosa e a matrona aristocrática andam quase por igual ausentes das básicas verdades. Ainda quando há, paradoxalmente, piedade nessas pessoas, elas mesmas confessam uma ignorância religiosa digna certamente de lastimar-se, muito mais digna de socorrer-se e remediar-se. Vem dessa ignorância que todos verificam, todos lamentam, a situação religiosa em que nos encontramos. Há uma diminuição crescente do espírito de fé em nossa boa gente. A propaganda herética multiplica as vítimas. O espiritismo cresce assustadoramente, desde as grandes capitais ao mais longínquo interior. Os deveres cristãos são desprezados como coisa de nonada, ao arbítrio dos interessados. A voz do pároco desconhecida, olvidada ou ridicularizada, não atinge mais as consciências. O nível religioso e, consequentemente, o moral, desce como uma temperatura de inverno. (NEGROMANTE, 1941, p.123)

Desde a última guerra, há sinais de crescente interesse, por parte do Vaticano, pelas condições espirituais e materiais da vida rural e urbana em todo o Brasil. Isto é particularmente verdadeiro entre certos grupos de líderes eclesiásticos e leigos católicos. Note-se que a educação e o desenvolvimento integral do cristão católico a ser preparado para enfrentar as vicissitudes dos tempos modernos consistia num ponto de discussão dentre as metas da Igreja:

Poder-se-iam apontar outros indícios de uma melhor integração do catolicismo brasileiro no corpo da doutrina e da estrutura da Igreja universal. Alguns dos desenvolvimentos assinalados pelos líderes do pensamento e da ação religiosa são: 1º)a organização de uma ativa elite de católicos piedosos e instruídos; 2º)a popularização do culto eucarístico fomentado pelos grandes congressos eucarísticos nacionais e diocesanos, os quais promoveram o aumento da frequência dos sacramentos e uma integração religiosa mais completa de muitas pessoas, especialmente nos centros urbanos; 3º)a substituição gradual das antigas irmandades religiosas, agora reduzidas a obras assistenciais e órgãos de classificação social dos seus membros, por associações mais dedicadas à formação espiritual e à ação religiosa; 4º)a expansão do sistema educacional católico no nível secundário e, no universitário, a criação de universidades católicas. (AZEVEDO, 2002, p. 34)

Enfim, pode-se notar um período onde a Igreja fervilhava de ideias e novas metas a serem atingidas. Precisava-se de “mão-de-obra” religiosa, que atuasse nas frentes de trabalho, formando o povo. Daí a Ação Católica corresponder de forma clara e coerente àquilo que era ansiado tanto pelo governo, quanto pela hierarquia.

Seguem mais alguns dados sobre a religiosidade católica na década de 40 no Brasil a fim de compreendermos melhor a realidade nacional quando da chegada dos missionários italianos no país:

  • Em 1947, de acordo com dados colhidos pelo IBGE, organização governamental encarregada dos censos demográficos e econômicos, a sagrada comunhão foi recebida 64.629.298 vezes pelos 39 e tantos milhões de católicos brasileiros. Mesmo admitindo que tais dados não sejam completos, esses algarismos indicam que, em média, cada fiel teria comungado 1,6 vezes por ano, o que em si mesmo seria satisfatório em face da exigência mínima, feita aos católicos, de receberem a comunhão uma vez por ano. Mas o que, na verdade, se passa é que aquela cifra é alcançada, em grande parte, por certo número de pessoas, particularmente do sexo feminino, que comungam muito frequentemente, ao passo que uma tremenda massa jamais o faz. (AZEVEDO, 2002, p. 40)
  • Em 1946-1947, analisando o estado conjugal de 1.388 operários fabris na Bahia, 38% dos mesmos mantinham uniões livres e, dos 32% casados, 40,8% eram casados civilmente, 18% somente no religioso e os restantes 40,8% ao mesmo tempo no civil e no religioso. Nesse grupo, é frequente ouvir dizer que só vale a pena casar civilmente porque isto assegura as vantagens do seguro social, ao passo que o casamento religioso não tem tal vantagem. (THALES DE AZEVEDO, Serviço Social e problemas baianos, Bahia, 1948. In: AZEVEDO, 2002, p. 40)
  • Em 1946, havia em toda a vastidão territorial do Brasil apenas 6.383 sacerdotes, sendo 2.964 do clero secular, na sua quase totalidade brasileiros, e 3.419 do clero regular, dois terços dos quais estrangeiros, — alemães, italianos, espanhóis, franceses, holandeses, poloneses, portugueses e outros. Apesar do clero crescer com muita lentidão, o número de paróquias, por motivos de ordem administrativa, tem sido aumentado. Em 1929, existiam 2.222 paróquias; em 1931, eram 2.394 e em 1947, atingiam a 3.033. (AZEVEDO, 2002, p. 42)
  • Em 1946, havia nos seminários brasileiros 4.579 candidatos ao sacerdócio: 3.583 frequentavam o seminário menor, que consiste, em termos gerais, de um curso secundário com ênfase no latim, nas humanidades e na religião, e a maioria de cujos matriculados não persevera até o fim da sua formação eclesiástica; isso explica que, no mesmo ano, somente 986 alunos havia nos seminários maiores. Entre estes últimos, grande parte não chega a receber as ordens sacras e a fazer os votos canônicos. 1947, nos seminários maiores de São Leopoldo (Rio Grande do Sul), São Paulo, Mariana, Diamantina, Belo Horizonte e Distrito Federal havia 631 alunos. (AZEVEDO, 2002, p. 45)
  • O protestantismo representava em 1940 cerca de 2,5% da população. (AZEVEDO, 2002, p. 45)
  • Vários líderes leigos, entre os quais salientaram-se Jackson de Figueiredo, Alceu de Amoroso Lima, Jonatas Serrano, Hamilton Nogueira e outros, e sacerdotes como o prestigioso Leonel Franca S. J., tiveram destacada atuação nos meios intelectuais e políticos. (AZEVEDO, 2002, p. 54)
  • A situação por ocasião do censo de 1950 era: católicos 93,48%; protestantes 3,35; espíritas 1,58; ortodoxos 0,07; israelitas 0,13; budistas 0,29; maometanos 0,00 (apenas 3.454 indivíduos); outras religiões 0,27; sem religião 0,52; sem declaração de religião 0,26%.

Encerramos esta reflexão sobre a história da Igreja no Brasil às décadas supracitadas no título com um texto de Alceu Amoroso Lima:

“É mister que os vários Episcopados nacionais concertem medidas para que se intensifique a Fé, como outrora tomavam medidas para que se dilatasse a Fé. Esse me parece ser o programa máximo e central da próxima e memorável reunião de todo o Episcopado brasileiro na capital do País… Os quatro séculos já passados foram, também para nós, de dilatação da Fé. Essa expansão não se fez sem grave prejuízo de sua pureza. A história religiosa no Brasil não será uma história cor de rosa. Será uma história dramática, uma história de lutas terríveis, a maioria das quais invisíveis, contra o espírito de dissolução, de confusão, de heresia latente, de impurificação da doutrina e de indisciplina individualista. Contra esse espírito de anarquia fará o Concílio Nacional uma obra de purificação e unidade. Esse confucionismo, por sua vez, mal congênito e tradicional de nossa imperfeita cristianização nacional, produziu naturalmente os maus frutos que não podia deixar de produzir e que se traduziram, acima de tudo, no espírito de indiferença e de superficialidade religiosa. Contra essa segunda deturpação histórica do verdadeiro espírito cristão que é do fervor e devotamento total, é que o grande Concílio traçará os rumos de intensificação da Fé. Valeria a pena de chamar a atenção, finalmente, para as correntes de opinião, particularmente de opinião política e de interpretação da doutrina social da Igreja, em que se dividem brasileiros, uns pejorativamente apelidados de maritanistas e de irenistas, outros integristas, receosos de qualquer ruptura com a ordem e o status quo social”. (“O Concílio”, A Ordem, a. XIX, v. XXII, Rio, 1939, p.8)

Frei Everton Leandro Piotto, OFM

Fonte (Imagem): Missionários Leigos


REFERÊNCIAS:

ARANTES, José Tadeu. A trajetória do pensamento católico no Brasil. Agência FAPESP. http://agencia.fapesp.br/a_trajetoria_do_pensamento_catolico_no_brasil/22616/ . Acesso: 20/04/2017.

AZEVEDO,  DERMI A Igreja Católica e seu papel político no brasil. Estudos avançados 18 (52), 2004. Em: http://www.scielo.br/pdf/ea/v18n52/a09v1852.pdf . Acesso: 18/04/2017.

AZEVEDO, Thales de. O catolicismo no Brasil: um campo para pesquisa social. Salvador: Edufba, 2002. In.: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ufba/464/1/O%20catolicismo%20no%20Brasil.pdf . Acesso: 20/04/2017.

AZZI, Riolando. A Igreja católica no Brasil durante o Estado Novo (1937-1945): http://faje.edu.br/periodicos/index.php/Sintese/article/viewFile/2272/2554

AZZI, Riolando. O Episcopado Brasileiro frente à Revolução de 1930. http://faje.edu.br/periodicos/index.php/Sintese/article/view/2391/2655 . Acesso: 20/04/2017.

BALDIN, Marco Antônio. Cardeal Leme e a construção da ordem política Católica (1930-1942). http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/cathedra/16-07-2015/000833879.pdf . Acesso: 20/04/2017.

http://www.pliniocorreadeoliveira.info/Minha_Vida_publica/MVP_08_Dom_Jose_Gaspar_e_Dom_Carlos_Carmelo.htm#.WP0wxOvR_IU

NEGROMANTE, Pe. A,“Melhoremos os catecismos paroquiais. REB, v.1REB, v.1, 1941, p.123.

O Legionário, n° 525, de 7/9/42.

PAIVA, Marlúcia. A Igreja Católica no Nordeste do Brasil (ANOS 40/50): ação missionária e/ou católica? http://www.afirse.com/archives/cd3/tematica2/037.pdf . Acesso: 20/04/2017.

ROSA, LILIAN RODRIGUES DE OLIVEIRA.  A Igreja Católica Apostólica Romana e o Estado Brasileiro Estratégias de inserção política da Santa Sé no Brasil entre 1920 e 1937. Em: http://www.franca.unesp.br/Home/Pos-graduacao/lilian-ro-rosa.pdf . Acesso: 18/04/2017.

VARGAS, Getúlio, Obras Completas, vol. V I , p. 275ss.



 

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