Parte II – “A figura de Maria no coração e no pensamento franciscano”

Caro (a) irmão (ã), estamos vivenciando o Ano Mariano, por isso, preparamos uma série de cinco partes na qual estamos refletindo sobre: “A figura de Maria no Franciscanismo”.

Esperamos que ajude em vosso aprofundamento na Espiritualidade Franciscana.

E se você não leu as outras partes, acesse os seguintes links: IntroduçãoParte I

 Tenha uma boa leitura e reflexão.

PAZ e BEM!

Equipe de Comunicação


Antes de adentrarmos na relação de Francisco com Maria, precisamos contextualizar o período que se inicia essa aproximação de forma mais efetiva e o modo pelo qual a vida de Francisco vai se configurando à profunda devoção mariana, que vai se evidenciar nos seus escritos e ser destacado em suas Biografias.

Francisco, como atestado por suas Biografias, após a batalha de Collestrada em 1202, passa um ano em cárcere na cidade de Perúgia[1], e na prisão tem contato mais estreito com a Sagrada Escritura. Francisco passa por longa doença em meados de 1204, mesmo assim no final desse ano e início de 1205, Francisco parte para a guerra na Apúlia, no entanto, em Espoleto tem seu projeto de ser cavaleiro mais uma vez interrompido por uma visão e, assim, regressa para Assis, aí se dá o início de sua conversão.

Em meados de 1205 Francisco vive uma intensa crise espiritual, crise essa que deu início a sua conversão. Durante essa crise o jovem Francisco, com frequência, visitava a solitária Capela da Porciúncula[2] dedicada à “Bem-aventurada Virgem Maria Mãe de Deus”. Nesta mesma Igrejinha, lugar modesto, em 1208 na festa de São Matias, Francisco ouve o Evangelho do envio Apóstólico[3] e vê com clareza o chamado do Senhor e parte como pregador itinerante. Do Santuário Mariana nasce a vida e a ‘missão’ propriamente franciscana.

Alfonso Pompei em Dicionário Franciscano destaca a típica relação de Francisco com os Santuários Marianos, de modo especial a Porciúncula, como acima destacado. A Porciúncula se torna “centro e cabeça da Ordem onde, por primeiro, viu a encarnação viva de sua devoção para com Maria, quase personificada na própria igrejinha devido à sua materna presença nela.”[4]

Em 1209, entre março e junho Francisco escreve uma breve Regra de Vida e parte para Roma, com mais onze companheiros, dignos imitadores dos Apóstolos, e encontrando com o Papa Inocêncio III conseguem aprovação desta primeira Regra, ao voltarem estabelecem-se em Rivotorto, num tugúrio[5] abandonado, mas ficaram aí por um curto período, estabelecendo-se novamente na Porciúncula.

A Igrejinha da Porciúncula pertencia aos Monges Beneditinos do Monte Subásio que permitiram a Francisco e seus companheiros o uso deste santuário mariano. A Porciúncula passa a ser o ponto de referência para a nova fraternidade itinerante. Como descrito na Legenda Maior:

Francisco era grande devoto de Maria Senhora do Mundo, e quando viu a Igreja naquele desamparo, começou a morar aí permanentemente a fim de poder restaurá-la. Foi agraciado com a visita frequente dos santos anjos (o que ali não se estranha, uma vez que a igreja se chamava Santa Maria dos Anjos) e se fixou neste local por causa de seu respeito pelos anjos e de seu amor a Mãe de Cristo. Sempre amou esse lugar acima de qualquer outro no mundo, pois foi aí que ele principiou humildemente, progrediu na virtude e atingiu a culminância da felicidade. E na morte recomendou este lugar aos irmãos como o mais caro à Virgem (2, 8).

Foi na Porciúncula que a jovem Clara em 1212 fez sua vestição religiosa e nasceu a segunda Ordem. Nesta capela de Santa Maria da Porciúncula reuniram-se vários capítulos Gerais, de Pentecostes para o encontro dos irmãos e as definições do carisma-missão da Ordem. Dalí saíam os irmãos para a pregação. Os frades que viviam e rezavam ali deviam ser “como um candelabro que arde sempre e brilha diante do trono de Deus e da Santíssima Virgem”[6], daquela humilde igrejinha devia emanar todas as ações da primitiva comunidade franciscana.

Nesta casa da Santíssima Virgem Francisco, mergulhado nesta atmosfera vital da devoção à Maria, escreveu a Saudação à Bem-aventurada Virgem Maria – Salutacio Mariae Virginis – e a Antífona Santa Virgem Maria – Sancta Maria Virgo – para as Completas do Ofício da Paixão – Officium passionis – essa última oração já remonta ao século VIII, mas Francisco adaptou à sua própria devoção pessoal e a repetia inúmeras vezes ao dia. Nesse contexto vital nasceu o costume de “tributar (a Maria) especiais louvores, multiplicar as orações e oferecer-lhe afetos, tantos quais que a língua humana não pode expressar”[7], no entanto, a data desses escritos é imprecisa. Este santuário mariano recebeu do Papa Honório III a conhecida indulgência plenária da Porciúncula em 02 de agosto de 1206. Dalí Francisco partiu para suas viagens. Essa casa sempre era o ‘ponto de partida’ e retorno de Francisco após suas tarefas apostólicas.

A linguagem mariana de Francisco, como já visto anteriormente, é formada por sua experiência do mistério cristológico. Francisco não é um teólogo como entendemos esse termo hoje, isto é, aquele que faz reflexão metódica e sistemática da experiência de fé, despoja-se dessas formulações escolásticas e mariológicas e longe dessa preocupação, sua vida e seus escritos sobre Maria estão em plena harmonia com o ensinamento Mariano vivo na Igreja e manifesta sua comunhão com a Igreja.

Maria para Francisco, em sua sensibilidade espiritual, é sempre colocada no contexto da história da salvação culminada com a Encarnação e prolongada na Igreja por obra do Espírito Santo. Sua devoção se apoia na maternidade divina e na relação de Maria com a Trindade, e de modo destacado, com o Espírito Santo. Maria para Francisco é a Mãe de Deus, a cheia de Graça e a Esposa do Espírito Santo.

Na Oração Final da Regra não Bulada dirigida ao “Onipotente, altíssimo, santíssimo e sumo Deus, Pai santo e justo, Senhor e Rei dos céus e da terra Deus” Francisco recorda a participação da Virgem Maria, quando diz “e rendemos-vos graças porque, se por vosso Filho nos criastes, pelo mesmo verdadeiro e santo amor com que nos amastes o fizestes nascer como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, da gloriosa, beatíssima, santa e sempre Virgem Maria” (23,5). A maternidade divina de Maria é um elemento central na fé que Francisco tem em Deus Uno e Trino. 

Francisco, em forma de oração exalta a absoluta transcendência divina de Cristo, e opõe-se ao dualismo espiritualista cátaro e qualquer aparência do docetismo[8] cristológico implícito nele, valorizando a verdadeira natureza corpóreo-espiritual de Cristo, e, portanto, a verdadeira maternidade da Virgem Maria que o concebeu, o carregou junto de seu coração virginal e o deu à luz. Para defender o dogma cristológico da Encarnação, Francisco insiste na pobreza de Maria no estábulo de Belém, isso para defender a ortodoxia cristológica, nutrindo a devoção, junto aos frades e à população, à verdadeira mãe de um homem verdadeiro, que participa de sua pobreza. Sobre isso, atesta a Segunda Vida de Francisco de Assis, escrita por Tomás de Celano:

Não podia recordar sem chorar toda a penúria de que esteve cercada nesse dia a pobrezinha da Virgem. Num dia em que estava sentado a almoçar, um dos frades lembrou a pobreza da Virgem bem-aventurada e a miséria de Cristo seu Filho. Ele se levantou imediatamente da mesa, soltou dolorosos soluços e comeu o resto de pão no chão nu, banhado em lágrimas. Dizia que essa virtude era real, pois brilhava de maneira tão significativa no Rei e na Rainha (200).

Maria é ainda cheia de graça, a plenitude da graça a qual Deus adornou em sumo grau pois era destinada a ser o templo vivo do Filho, e por seu assentimento livre – fiat mihi – Deus a capacitou para viver as excecionais e especiais relações com a Santíssima Trindade. Tudo que existe nela vem de Deus, por isso, Francisco não separa os louvores dirigidos a Maria do louvor da Trindade, que a escolheu e adornou com graças acima de toda criatura. 

Maria é a “filha e serva do altíssimo Rei e Pai celestial, Mãe de nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo.”[9] Para Francisco a Mãe de Jesus é a Maria do Evangelho, pensa então na narrativa de Lc 1, 35 onde o Espírito Santo desceu sobre Maria e estendeu sobre ela a sua sombra. O exemplo de Maria para ele é um sinal da revelação divina e da gratuidade ao convite de Deus, respondendo a esse convite Maria se torna a “Esposa do Espírito Santo.”

Do exemplo de Maria se deriva a concepção de Francisco descrita na II Carta aos Fiéis, onde pelo exemplo de Maria, Francisco exorta a todos sobre o modo de ser gratuidade em relação a visita de Deus e de sua preciosíssima vontade:

E todos os homens e mulheres que assim agirem e perseverarem até o fim verão “repousar sobre si o Espírito do Senhor” (Is 11,2), e Ele fará neles sua morada permanente (Jo 14,23), e eles serão filhos do Pai celestial (Mt 5,45), cujas obras fazem. E eles São esposos, Irmãos e Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 12,48-50). Somos esposos, quando a alma crente está unida a Jesus Cristo pelo Espírito Santo. Somos seus Irmãos, quando fazemos a vontade de seu Pai, que está nos céus (Mt 12,50). Somos suas Mães, se com amor e consciência pura e sincera o trazemos em nosso coração e nosso seio e o damos à luz por obras santas que sirvam de luminoso exemplo aos outros (cf. Mt 5,16). (9, 48-53).

O primado inegável de Jesus Cristo na vida e na contemplação de São Francisco que tem como consequência sua relação amorosa com Maria anuncia que o mistério da graça de Maria foi um fruto único da redenção e que ela, como nós, foi remida, mas de modo perfeito. Para Francisco “no mundo não nasceu entre as mulheres nenhuma semelhante”[10], Maria é a “mãe da misericórdia”[11], é “serva” especialíssima e singular do único Mediador Jesus Cristo, nesse intuito, se desenvolverá posteriormente a máxima “Concebida sem pecado”. Concluindo, Francisco não pode ser pensado sem sua relação com Maria, Francisco recorre a fórmulas da Igreja de seu tempo acentuando sua concepção vivencial e propõe essa devoção à Ordem nascente.

Frei Adriano Cézar de Oliveira, OFM


Notas:

[1] Sobre o cárcere de Francisco em Perúgia ver o artigo disponível em: http://www.ofmscj.com.br/?p=3369.

[2] Das Fontes Franciscanas sobre a preferência de Francisco à Porciúncula, ver: Segunda Vida de São Francisco, 18,5; 19,9; Legenda dos Três Companheiros 56, 2-3; Compilação de Assis 56, 27-28; Espelho da Perfeição (maior), 55, 21-22; 83, 3ss.

[3] Cf. Mateus 10, 7-10; Marcos 6, 8-9 e Lucas 9, 1-6.

[4] Cf. DICIONÁRIO FRANCISCANO, Verbete: MARIA, Nossa Senhora, Mãe, Imaculada. p. 412.

[5] Habitação pequena e pobre; choupana, casebre. Nesse caso, lugar onde ficava os animais.

[6] Segunda Vida de São Francisco, 198.

[7] Idem

[8] Docetismo: doutrina herética existente nos séculos II e III que negava a existência de um corpo material a Jesus Cristo, o qual seria apenas um espírito.

[9] Ofício da Paixão, 12.

[10] Idem

[11] Legenda Maior 3, 1.



 

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