Parte I – “Prévias sobre a História Fundacional da Custódia: O início da Missão Italiana no Brasil”

I – As fundações brasileiras e a necessidade de religiosos nestas terras

A região eclesiástica de Jaboticabal abrangia um território vasto no interior do Estado de São Paulo, com localidades que hoje fazem parte das dioceses de Barretos, Catanduva, Franca com uma extensão de 14.000 Km2, e com uma população total de 350.00 habitantes, dentre estes, 242.500 os católicos – de acordo com os anuários oficiais da Província de Nápoles, datados de 1945. A necessidade de sacerdotes e religiosos era grande, a diocese contava com dez padres seculares e nove religiosos para o atendimento à 24 igrejas Paroquiais e 79 comunidades (muitas delas vilarejos com capelas edificadas e propensas a serem novas Paróquias). Devido ao fato de a região ser muito promissora quanto ao crescimento populacional e migrações dos brasileiros à procura de melhores condições de vida, havia carência de presença religiosa de modo que se marcasse também,para além do atendimento espiritual das almas, o âmbito social e cultural.

A história nos aponta para a presença de diversos missionários,sejam eles religiosos ou padres seculares que atuaram nas terras jaboticabalenses. Temos relatos de missionários oriundos da Espanha atuando, por exemplo, na cidade de Bebedouro antes da chegada dos Frades na Paróquia São João Batista; destacam-se também a presença de diversos religiosos em outras comunidades interioranas da diocese, como por exemplo, os Frades da Ordem Agostiniana Recoleta (OAR), que atuaram no município de Pirangi e região, dentre outros.

Criada pelo Papa Pio II por meio da Bula “Sollicitudo Omnium Eclesiarum”, de 25 de janeiro de 1929, desmembrada da diocese de São Carlos e instalada os 16 de julho do mesmo ano, a Diocese de Jaboticabal teve como primeiro Bispo administrador Dom José Marcondes Homem de Melo, então Bispo titular de São Carlos. Este exerceu sua missão até o momento em que a Santa Sé designou como o Bispo Titular da referida Diocese, Dom Antônio Augusto de Assis, Arcebispo Bispo, que a diocese entre os anos de 1931 e 1961. Note-se que mesmo assumiu o Pastoreio do Povo de Deus com o intuito de desenvolver tanto o apostolado em relação à cura das almas, quanto os trabalhos junto ao meio secular para o progresso e desenvolvimento da comunidade eclesiástica local.

Foi durante o apostolado de Dom Antônio Augusto de Assis que os Frades foram convidados a enviar os seus missionários a estas terras.  Vale destacar que havia um primeiro interesse em oferecer a paróquia Nossa Senhora Aparecida, sediada no município de Jaboticabal, ao cuidado dos religiosos franciscanos, dados que se confirmam por meio dos documentos encontrados até então, mas o interesse do então bispo, a partir de uma observação da distribuição territorial dos frades nas casas que lhes foram entregues à época, era também que os religiosos assumissem o pastoreio de outras comunidades mais afastadas da sede diocesana, como Guaraci, Cajobi e Olímpia, por exemplo. Embora a presença religiosa Franciscana em terras brasileiras remonte a tempos de Pedro Álvares Cabral, os Frades passaram a ocupar o interior do Brasil com maior intensidade apenas a partir do século XX.  E destaque-se que, já no início do referido século encontramos fundações de diversas comunidades religiosas minoríticas em diferentes localidades do interior, do norte do sul e do centro-oeste brasileiro. Tais fundações aconteceram em momentos diferentes da história de cada Província mãe da região que as acolheu, sendo,  por  incrível que pareça, muitas das vezes iniciadas pelos mais diferentes motivos aparentes.

Desse modo, temos que as províncias europeias – primeiramente sendo fortemente incentivadas pela política vaticana (já relatada em artigos anteriores), que favorecia a implementação e o desenvolvimento catequético da religiosidade na América Latina a fim de estreitar os laços do continente Ameríndio à Santa Sé – passaram a enviar seus missionários e, paulatinamente, acabaram por criar um mosaico de províncias e fundações caracterizadas por serem fiéis herdeiras do seu legado provincial europeu e tradições espirituais da Ordem. Estas fundações, financiadas pelas províncias-mães, acabavam por transformar-se numa grandiosa rede de investimentos financeiros e de mão-de-obra “especializada” na função à qual se direcionavam, servindo para auxiliar tanto o governo brasileiro quanto às Igrejas Particulares que as recebiam.

As pesquisas históricas apontam para o grande interesse que a Igreja possuía em convidar os religiosos (ramos masculino e feminino) para assumirem frentes de trabalho no interior do território nacional. Primeiro porque a presença religiosa garantia a cura das almas por meio de um número grande de membros das ordens e congregações, fossem eles padres, irmãos ou irmãs consagradas; outro fator é que o cuidado dos religiosos para com o povo local geralmente dar-se-ia com fundações de obras caritativas, muitas vezes por meio de investimentos estrangeiros, ou mesmo desenvolvimento de apostolados específicos de acordo com a necessidade da população, como as escolas e colégios, orfanatos ou asilos. A tudo isso se acrescente também o fato de que, em diversas regiões, onde a Igreja carecia de estruturação e de construção das instalações eclesiásticas e complexos pastorais adequados, a presença dos religiosos acabava sendo um elemento importante, exatamente porque estes serviam de canalizadores constantes de doações e benefícios oriundos das províncias-mães, o que favorecia imensamente o enriquecimento do patrimônio Eclesiástico local garantindo a construção de igrejas, escolas, creches, orfanatos e outras instituições caritativos em favor do povo, facilitando, assim, o trabalho das estruturas governamentais.

Sobre as fundações minoríticas, temos algumas que merecem maior destaque, exatamente porque não podemos deixar de citar a chegada de outros religiosos da Família Franciscana.  Desse modo, encontramos a presença dos Frades Conventuais (OFMConv) no Brasil a partir do ano de 1947, algo até recente se comparado aos Frades Capuchinhos (OFMCap), que remetem a sua primeira Fundação à 1612, como o ano da instalação em terras brasileiras, quando os primeiros capuchinhos franceses chegaram a São Luís do Maranhão, trazidos juntamente com as caravanas de Maurício de Nassau.  Vale destacar ainda, sobre os Capuchinhos, que o Brasil viverá uma invasão dos respectivos frades oriundos da Itália a partir de 1887. Tudo isto levando-se em consideração que a vida religiosa no Brasil, desde os tempos do governo de Marquês de Pombal até a Proclamação da República, passara por diversas crises, inclusive com fechamento dos Noviciados, o que será remediado apenas a partir de 1889, quando a República passará a favorecer também a atuação dos religiosos e, com isso, a vida religiosa consagrada em território brasileiro passará a desenvolver-se com maior facilidade e liberdade junto às instâncias governamentais.

Somando-se a tudo isto, torna-se imperativo o destaque para a presença dos Frades Menores (OFM) no interior do Brasil os quais, entre crises e sobressaltos, passando pelas mesmas dificuldades em relação aos governos brasileiros – que as outras Ordens também sofreram – serão também os responsáveis pelo envio e fundação de numerosas comunidades de religiosos pelo interior do país. Precisamos mencionar o fato de que as províncias europeias não pouparam esforços para enviar seus representantes à estas terras, e vale-se lembrar que os documentos históricos, principalmente os que temos de nossa Custódia, apontam para a preocupação dos superiores em “escolher” os irmãos mais aptos para as missões. Fosse para marcar seu território e contribuir com a formação do povo de Deus no Brasil, ou ainda para auxiliar os bispos junto ao cuidado das almas, os frades eram enviados com grande atenção e solicitude, recebendo inclusive bênçãos pontificais para tal intento.

Cabendo aos bispos ou autoridades escreverem pedindo frades, o desejo de responder ao próprio chamado franciscano de missionariedade, algo fortemente proposto na época, e o anseio pela evangelização “ad gentes” proporcionou uma riqueza incomensurável ao Brasil, que acabou por tornar-se um belíssimo mosaico franciscano construído e organizado a partir da vinda dos frades europeus e norte-americanos. Desse modo, o interior do país recebe os religiosos de braços abertos, e estes, não mediram esforços para iniciar desde sua chegada, as transformações sociais, culturais e religiosas, frutos deste impacto de culturas.  Podemos afirmar que o Brasil, por diversas vezes, presenciou uma verdadeira “europeização” da fé Católica Romana, onde os missionários tornaram-se implantadores de seus costumes e modos religiosos de ser ao estabelecerem contato com as comunidades locais.

A fim de melhor compreender e visualizar tais fatos, destacaremos a partir de agora as principais Fundações,os territórios onde estas se desenvolveram e as suas inter-relações com as províncias de origem e de umas com as outras. Note-se que são ambientes onde a religiosidade popular carecia de padres e religiosos, deste modo podemos afirmar que a Ordem dos Frades Menores sempre procurou colocar-se junto àqueles ambientes onde a Igreja mais precisava.

Frei Everton Leandro Piotto, OFM

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