São Francisco e a Eucaristia

Francisco de Assis é considerado um homem da piedade prática. Jamais quis ele ocupar-se, exaustivamente, de questões doutrinais. Embora o tenha feito, quando olhamos seus Escritos com olhar de hoje. Para ele, a fé não pertence ao domínio intelectual, senão moral: a fé é para Francisco uma consagração do coração.

Em relação à Eucaristia, podemos dizer que existe uma doutrina eucarística em seus Escritos, principalmente, se levarmos em conta a incidência desse tema em suas palavras e ações. Francisco não era um teólogo, no sentido da escolástica, como compreendemos hoje, mas, foi se abrindo à presença de Deus e D’ele foi fazendo experiência, como atesta o biógrafo, quando diz de uma vez que Francisco era chefe de “seu bando de jovens” e:

Aos poucos foi saindo corporalmente do meio deles, ele que já estava de toda mente surdo àquelas coisas e, no coração; cantava ao Senhor. Como ele mesmo contou depois, foi tamanha a doçura divina que sentiu nessa ocasião, que não podia nem falar nem se mover. Foi invadido por um afeto espiritual, que o arrebatou para as coisas invisíveis, diante das quais achou que todas as coisas da terra nada valiam e eram absolutamente frívolas. Estupenda bondade de Deus, que aos que fazem as coisas menores dá as maiores, e no meio de um dilúvio de águas caudalosas preserva e promove o que é seu. Cristo alimentou com pães e peixes a multidão e não rejeitou de sua refeição os pecadores. Convidado para ser rei, fugiu e subiu … montanha para rezar. São mistérios de Deus, que Francisco compreendeu e que, embora ignorante, foi levado a compreender com perfeição.[1] Sua inteligência purificada penetrava os segredos dos mistérios, e, onde ficava fora a ciência dos mestres, entrava seu afeto cheio de amor. Usava a memória no lugar dos livros, porque não perdia o que ouvia uma vez só, pois ficava refletindo com amor em continua devoção.[2]

A Idade Média em geral, aqui destacamos o tempo de Francisco, estava marcada por uma profunda crise eucarística. Esta crise foi amplamente sentida e debatida no IV Concílio de Latrão, em 1215. Francisco, como um homem sensível à realidade de seu tempo viu de perto muitos abusos e a proliferação de heresias. Desse modo, sua doutrina eucarística visa a defesa da Eucaristia e, por isso, sempre exortava seus irmãos para que não se enveredassem por caminhos errôneos, mas sim, que compreendessem o verdadeiro sentido da Eucaristia. Expressão disso são suas Admoestações, suas Cartas e o testemunho de seus biógrafos. Neste pequeno ensaio traremos apenas trechos das Admoestações e da Carta à Toda Ordem, com o objetivo de apresentar, sumariamente, algumas palavras de Francisco sobre a Eucaristia e o Sacerdócio.

Francisco foi corrigindo e esclarecendo muitos pontos, que em sua época estavam desfigurados pela heresia, recobertos de erros de compreensão, e afastados da devota piedade que nasce de uma reta fé. A sua doutrina eucarística expressa, nas suas inúmeras exortações, o que extraía da vida da Igreja e formulava a partir da essência do sacramento. Suas palavras sobre o Sacramento da Eucaristia são, surpreendentemente, profundas. A Eucaristia, para Francisco, se manifesta através da inteligência da fé, na Eucaristia se prolonga a Encarnação reveladora e Nela se torna presente o sacrifício redentor. Lemos na primeira Admoestação: Do Corpo do Senhor:

15Portanto, “ó filhos dos homens, até quando tereis duro o coração?” (Sl 4,3). Por que não reconheceis a verdade “nem credes no Filho de Deus” (Jo 9,35)? 16Eis que Ele se humilha todos os dias (Fl 2,8); tal como na hora em que, “descendo do seu trono real” (Sb 18,5) para o seio da Virgem, 17vem diariamente a nós sob aparência humilde; 18todos os dias desce do seio do Pai sobre o altar, nas mãos do sacerdote. 19E como apareceu aos santos apóstolos em verdadeira carne, também a nós se nos mostra hoje no pão sagrado. 20E do mesmo modo que eles, enxergando sua carne, não viam senão sua carne, contemplando-o, contudo, com seus olhos espirituais creram nele como no seu Senhor e Deus (cf. Jo 20,28), 21assim também nós, vendo o pão e o vinho com os nossos olhos corporais, olhemos e creiamos firmemente que está presente o santíssimo corpo e sangue vivo e verdadeiro. 22E desse modo o Senhor está sempre com os seus fiéis conforme Ele mesmo diz: 23“Eis que estou convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).[3]

Francisco, em suas palavras apaixonadas e conscientes, exorta os irmãos a considerarem a retidão e a pureza deste sacramento, e mostra, com uma sensibilidade ímpar, seu equilíbrio doutrinal e sua mais íntima devoção ao Santíssimo Sacramento que se dá a cada um de nós, quando diz: “13é o Espírito do Senhor, que habita nos seus fiéis quem recebe o santíssimo corpo e sangue do Senhor (cf. Jo 6,62)”[4] e, “14todos aqueles que não participam desse espírito e no entanto ousam comungar, “comem e bebem a sua condenação” (lCor 11,29).”[5] Francisco, nestas palavras, também rebate claramente, aqueles que não acreditavam na presença de Jesus na Eucaristia, exortando-os a, com fé, comungarem e terem vida.

Depois de falar da Eucaristia, presença do próprio Deus no meio de nós, fala sobre os sacerdotes e o devido respeito que deve receber “aqueles que trazem Nosso Senhor”: “1Bem-aventurado o servo de Deus que põe a sua confiança nos clérigos que na verdade vivem segundo a forma da santa Igreja Romana. 2Mas ai daqueles que os desprezam! Pois nem que eles sejam pecadores, ninguém os deve julgar porque o Senhor mesmo reservou para si o direito de julgá-los. 3Porquanto na medida que excede a tudo a administração que eles exercem sobre o santíssimo corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que eles recebem e só eles podem ministrar aos outros, 4em idêntica medida é maior o pecado daqueles que cometem falta contra eles do que o pecado cometido contra qualquer outro homem deste mundo.”[6]

Na Carta a Toda a Ordem Francisco fala diretamente aos sacerdotes: “14Peço ainda no Senhor a todos os meus Irmãos sacerdotes, os que são, vierem a ser ou desejarem ser sacerdotes do Altíssimo, que, ao celebrar a Missa, ofereçam o verdadeiro sacrifico do santíssimo corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, pessoalmente puros, com disposição sincera, com reverência e com santa e pura intenção, jamais levados por qualquer interesse terreno nem por temor ou consideração de qualquer pessoa “como quem procura agradar aos homens” (Cl 3,22). 15Seja antes todo vosso querer, na medida que vos ajudar a graça do Onipotente, ordenado para Deus, desejando assim agradar unicamente a Ele, o supremo Senhor, porque só Ele opera ali como for do seu agrado. 16Pois – como Ele mesmo diz: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19) – quem proceder de outra maneira torna-se outro Judas traidor e faz-se réu do corpo e sangue do Senhor (lCor 11,27).[7]

Em suma, quando olhamos para esses fragmentos dos Escritos de Francisco de Assis, podemos resumir sua doutrina eucarística na frase: “temos que amar muito o amor que muito nos amou”, amor esse, que muitas vezes, não é amado[8]. A Eucaristia é para Francisco uma relação permanente com o amor de Cristo, que se ofereceu e se oferece continuamente, por amor de nós e por nossa salvação. Esta suprema doação, Nosso Senhor na Eucaristia, pede de nós uma incessante resposta de amor, e nesse caminho nos ajuda São Francisco e sua sabedoria, “nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá!”[9]

Frei Adriano Cézar de Oliveira, OFM

Fonte (Imagem): Frades OSF


Notas:

[1] Vida Segunda de São Francisco, 7.

[2] Vida Segunda de São Francisco, 102.

[3] Admoestação 1, 15-23.

[4] Admoestação 1, 13.

[5] Admoestação 1, 14.

[6] Admoestação 26.

[7] Carta a Toda a Ordem, 14-16.

[8] Cf. Vida Segunda de São Francisco, 196.

[9] Carta a Toda a Ordem, 29.



 

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