11º Domingo do Tempo Comum: “A presença constante de Deus no mundo”

É necessário e cabe-nos fazer uma memória afetiva da dinâmica do processo litúrgico, pois já se está em voga o Tempo Comum, de cor verde, que iniciou-se em Janeiro, logo depois da Festa do Batismo de Jesus, e foi interrompido na Oitava Semana para fazermos o Retiro Quaresmal, no início de Março. Passado o Tempo da Quaresma e passado o Tempo da Páscoa, retornamos o Tempo Comum, que teve seu reinício logo depois de Pentecostes, no começo de Junho. Celebramos, pois, a Solenidade da Santíssima Trindade na décima semana do Tempo Comum e seguiremos até o começo de dezembro, encerrando esse Tempo com a Solenidade de Cristo Rei na trigésima quarta semana. São 34 semanas do Tempo Comum interrompidas pela Páscoa.

Seguindo este espírito de dinamicidade presente em nosso processo litúrgico, neste 11º Domingo do Tempo Comum, a liturgia lembra-nos a presença constante de Deus no mundo e a vontade que Ele tem de oferecer aos homens, a cada passo, a sua vida e a sua salvação. No entanto, a intervenção de Deus na história humana concretiza-se através daqueles que Ele chama e envia, para serem sinais vivos do seu amor e testemunhas da sua bondade. É com esta concreteza que, no Evangelho, Mateus conclui a parte narrativa dos dez milagres e dá início ao Sermão Missionário ou Discurso Apostólico. Jesus vê o povo cansado e abatido como ovelhas sem pastor e sente compaixão, e percebe a necessidade de operários para a colheita que é grande. Chama, então, doze discípulos, que são os doze Apóstolos, e os envia em missão para anunciarem que o Reino dos Céus está próximo. Dá-lhes poder para expulsar demônios e curar doenças, purificar leprosos e ressuscitar mortos. Recomenda-lhes não irem aos territórios dos pagãos nem dos samaritanos, mas priorizarem as ovelhas perdidas da casa de Israel. E dá-lhes ordem de tudo fazerem de graça, porque de graça receberam (cf. Mt 9, 36-10,8).

Além do mais, a primeira leitura (cf. Ex 19, 2-6a) indica-nos o Deus da memória, da revelação, da aliança, que elege um Povo para com ele estabelecer laços de comunhão e de familiaridade; a esse Povo, Deus (Jahwéh) confia uma missão sacerdotal: Israel deve ser o Povo reservado para o serviço do Senhor (Jahwéh), isto é, para ser um sinal de Deus no meio das outras nações. É justamente por isso que a caminho do Sinai, Moisés recebe a missão de fazer do povo um reino de sacerdotes e uma nação santa, verdadeira porção escolhida entre todos os povos, que ouve a voz de Deus e guarda sua aliança. Nada parecido com um povo sem pastor (cf. Mt 9, 36-10,8). Séculos depois, os doze Apóstolos são enviados ao mundo para realizarem a missão de Moisés. No meio da humanidade farão surgir, como fermento na massa, um povo justificado e reconciliado, salvo da ira pelo sangue de Jesus Cristo. Este povo será o sinal da chegada do Reino. Reconciliado consigo mesmo, com Deus e com a natureza, fará ressoar nos ouvidos dos que se encontrarem dominados pelo poder do demônio, disseminador de enfermidades e morte, que o Reino dos Céus está próximo de cada um, de cada pessoa. Esta comunidade de reconciliação devolve ao povo cansado e abatido a esperança, devolvendo-lhe os pastores que estavam em falta e que, na oração, foram pedidos para a colheita.

Como eco, o Sermão Missionário encontra-se no capitulo décimo do Evangelho de Mateus, do qual lemos alguns versículos neste domingo e no próximo. Feita a escolha dos doze, Jesus dá a eles recomendações precisas e prepara-os para as dificuldades que não serão poucas. A decisão de aceitar o Reino dos Céus, aceitando Jesus e seus ensinamentos, será sempre envolvida por uma luta. Jesus não veio trazer paz de águas paradas, mas a espada espiritual da

luta por uma causa. Ninguém se interessa de forma absoluta e radical por Cristo e pelos outros, se não entrar na batalha do despojamento e da renúncia. Apresenta, em suma, uma catequese sobre a escolha, o chamamento e o envio de doze discípulos, que representam a totalidade do Povo de Deus, a anunciar o Reino. Esses doze serão os continuadores da missão de Jesus e deverão levar a proposta de salvação e de libertação que Deus fez aos homens em Jesus, a toda a terra.

Assim, a segunda leitura (cf. Rm 5, 6-11) elucida, como concretude, e enfatiza que a comunidade dos discípulos deve ser fundamentalmente uma comunidade de pessoas integradas que, mesmo sendo pecadora e limitada, reconhece a Sua bondade. Portanto, a missão de Jesus, no mundo, é dar testemunho do amor de Deus pelos homens – um amor eterno, sem reservas e profundamente gratuito. É na gratuidade, enfim, que precisamos dar continuidade a missão, pois não podemos fechar os olhos diante duma realidade imiscuída de indiferença e de superficialidade, que deixa o coração do homem profundamente insatisfeito e vazio. Todavia, para não ficarmos na insatisfação, sejamos, portanto, presença compassiva na vida do outro, porque Jesus se compadece e se coloca no lugar do outro para somar, mas, para isso, Ele convoca cada um de nós para uma missão e ignorar o projeto d’Ele em favor da vida é ser indiferente a ELE mesmo.

Frei Carlos Eduardo de Sousa, OFM

Fonte (Imagem): Pés, Pó e Pedras

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