Dinheiro e clericalismo é enfatizado por Frei Valmir Ramos, OFM no 3º dia do Congresso Continental para Formadores

Está nas mãos, especialmente, dos formadores franciscanos evitar duas ameaças para a Ordem Franciscana no futuro. A constatação que parece, à primeira vista, ter uma conotação apocalíptica, foi feita com tranquilidade e serenidade pelo Definidor Geral para a América Latina, o brasileiro Frei Valmir Ramos, convidado a deixar uma mensagem aos 67 participantes do Congresso Continental para Formadores da Ordem dos Frades Menores, no Centro da Sagrada Família, no bairro do Ipiranga (SP). Antes, às 7 horas, Frei Valmir presidiu  a Santa Missa. Ele esteve também no Encontro de Justiça Paz e Integridade da Criação, em Anápolis (GO), e trouxe de Roma uma saudação especial do Ministro Geral, Frei Michael Perry, para os formadores neste terceiro dia (6/9) do evento.

A primeira ameaça, segundo o frade, é o dinheiro, e São Francisco já havia alertado para esse perigo no seu tempo. “Por isso, São Francisco disse que dinheiro é esterco de burro. Vocês sabem que o esterco de burro é muito fraco. Não serve para nada, nem para biogás. É diferente do esterco do gado ou da galinha. O dinheiro é uma ameaça porque ele corrompe, mesmo que digam que não é ele o problema, mas a vontade de ter independência e poder aquisitivo. Podemos colocar tudo que envolve essa questão, porém o fato é que o dinheiro é uma ameaça para a Ordem. Nós temos frades que roubam, que furtam, que desviam, que pensam que o dinheiro é o Deus dele, por isso nunca foram diante do Santíssimo. Ou se foram é para achar um meio de multiplicar o dinheiro”, lamentou.

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A outra ameaça para a Ordem hoje, falando de mundo e da América Latina, é o clericalismo. “Nós não somos clérigos. Nossa Ordem nasceu forte entre irmãos. E todos sabemos disso. Vocês sabem! Nós lemos ‘a Regra e a Vida dos Frades Menores’ e não ‘a Regra e a vida dos Padres Maiores’. Porque como frades menores somos irmãos. O clericalismo acaba com a Ordem. Ele não permite que nós sejamos irmãos entre irmãos”, destacou.

Para o Definidor Geral, contudo, há algumas vantagens em alguns lugares. “Nós chamamos os confrades de frei. Não falamos assim: ‘bom, este frei não é sacerdote, então ele é frei; aquele frei é sacerdote, então ele é padre. Então, você é frei, você é padre…’ Nós chamamos frei em muitos lugares. Isto pode ser um sinal muito simples, mas também é indicativo, porque onde existe clericalismo, o frei sacerdote não admite ser chamado de frei. E aí já estamos quase fora da intuição de São Francisco. E tem também uma outra questão de nomenclatura que está ligada à Igreja e nós estamos dentro da Igreja, que é a função de superior. Então, ‘eu sou o seu superior, vocês são todos seus inferiores. Vocês, inferiores, obedecem’. Isso não é de São Francisco, absolutamente. Se eu não tiver enganado, porque li nas obras de Frei Cesare, especialmente na de Teologia Espiritual dos Escritos, que São Francisco não usa a palavra superior. Mas usa as palavras ministro e guardião. O ministro é o que serve e o guardião é a mãe. Também nós não encontramos nos escritos de São Francisco, quando ele fala do acompanhamento dos irmãos, o termo governo. Superior ou superiores maiores, isto não é próprio do franciscanismo. São Francisco só usa a palavra governo para se referir a organizações externas. Então, são questões muito simples, imperceptíveis, mas que podem entrar na Ordem e destruí-la. A tendência, cada vez maior, é do clericalismo. Nós somos irmãos. Então, se queremos uma Ordem de Irmãos, que tem aqueles com a vocação sacerdotal e aqueles com a vocação laical, devemos formar a Ordem de Irmãos, crescer juntos e sermos testemunho para o dia de hoje e para o futuro”, constatou, pedindo um olhar e cuidado especiais.

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Como responsáveis pela animação da Ordem, Frei Valmir fez o seguinte questionamento: Que tipo de frades nós queremos? “Essa pergunta não é nova, mas ela é importante para direcionarmos as nossas ações e também a nossa ação como guardiães, ministros, formadores. Que tipo de frades nós queremos? Se nós queremos frades burgueses, que trabalhem com os ricos, nós vamos formá-los burgueses trabalhando com os ricos; se nós queremos frades clérigos, que trabalham celebrando missas, batizados, casamentos e não saem da sacristia, vamos formá-los assim; se nós queremos frades que se preocupam mais com o estomago, nós vamos formá-los assim; então, me diga que frades nós queremos”, perguntou.

Na sua reflexão, durante a Missa, também abordou a formação franciscana. “É muito importante que todas as etapas da formação, a partir da animação vocacional que acolhe o vocacionado, estejam em fraternidades que vivam o mais autenticamente possível o carisma franciscano. Nenhuma etapa de formação pode ser colocada, ser transferida ou ser inserida em situação onde existem dúvidas a respeito do carisma franciscano”, observou.

Frei Valmir citou o querido Ministro Geral, Frei Giacomo Bini, que dizia que quando acolhemos um jovem, ou formamos ou deformamos. “Por isso, acolher um jovem que, às vezes tem 18, 20 ou 35 anos, não importa muito a idade, que não tem claro o carisma franciscano pode colocar em risco a fraternidade e até o carisma”.

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OS ROSTOS DA ORDEM

Segundo Frei Valmir, estamos tempo de mudanças e a primeira mudança visível, e que Frei Michael Perry (Ministro Geral) tem refletido constantemente, é a  do rosto da Ordem. “Então, a Ordem está mudando de cor. A Ordem não é mais da cor europeia, nem da cor norte-americana. Dentro de 20 anos terá mudado ainda mais. A cor da Ordem é latino-americana, africana e asiática. Esta mudança nos faz refletir a respeito da nossa responsabilidade também diante das mudanças. As mudanças que acontecem no mundo, na vida das pessoas, da sociedade de um modo geral, que vai acontecendo na Igreja – e aí tem uma mudança significativa -, isso nos dá uma responsabilidade grande. Para nós, latino-americanos, a primeira responsabilidade é exatamente da formação em todas as suas etapas, porque quanto mais nós vivermos autenticamente o carisma franciscano mais nossos jovens latino-americanos vão procurar responder ao chamado de Deus na Ordem Franciscana. Do contrário, não. Se não vivermos o carisma franciscano, os jovens não terão a coragem de responder ao chamado de Deus”, alertou, lembrando que a Ordem não pode mais pensar em vocações onde não há mais jovens e os fiéis são pessoas acima dos 60 anos.

terceiro_060917_pLembrando que o Ministro Geral pede responsabilidade para acolher e acompanhar aqueles que respondem ao chamado de Deus, Frei Valmir disse que hoje é preciso ir ao encontro do vocacionado.  “Nós não podemos mais contar com os colégios seráficos, que ajuntavam tantos meninos. Eles não vêm mais. Hoje é preciso ir ao encontro do vocacionado. Depois deste encontro, contudo, não se deve esquecer do vocacionado. Não é possível deixar de responder ao contato de um vocacionado, seja por alguma forma dos novos meios de comunicação ou pela forma antiga dos Correios. É necessário responder. É preciso ser como o pescador, que pega o peixe e não permite que ele vá embora”, ensinou.

Frei Valmir insistiu muito na sua reflexão que a função na Ordem de guardião, de formadores, ministros etc é colocar-se a serviço como pedia São Francisco. “Também gostaria de recordar com vocês a importância de vivermos bem, ou ao menos fazer todo o esforço possível, para vivermos bem o nosso carisma, a fim de que sejamos também acompanhadores dos nossos confrades, independente, vamos dizer assim, da condição deles, seja ele nosso guardião ou seja o nosso confrade que trabalha conosco na paróquia, na obra social etc. Nós temos a responsabilidade de nos acompanharmos, sermos de fato irmãos e de percebemos aqueles sinais que indicam que alguma coisa não está bem com o meu irmão. E nós somos assim: co-responsáveis uns pelos outros”, completou.

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O GUARDIÃO E A FORMAÇÃO PERMANENTE

Frei Bernardo Brandão, Ministro Provincial da Província Nossa Senhora da Assunção, foi o assessor do tema do dia: “O guardião que ordinariamente acompanha a Formação Permanente: seu papel, sua formação”. O frade partiu de uma fundamentação espiritual para desenvolver o tema, indicando que o guardião vigia para que o óleo não venha a faltar e que essa ação de vigilância é feita pelo próprio Cristo, que zela pelo projeto do Pai. O guardião, segundo o frade, tem como tarefa principal “manter viva a esperança” dos irmãos.

terceiro_060917_2Ao tocar num ponto crucial do encargo de guardião, disse Frei Bernardo  que longe de ser autoritário e longe do gosto de mandar nos irmãos, a verdadeira autoridade é uma força interior. “Ela cria um clima de confiança entre os irmãos, promove mais comunicação, derruba barreiras e bloqueios e resolve mais fácil alguns conflitos”, garantiu.

Para este serviço, Frei Bernardo lembra que é muito aconselhável que o guardião se prepare bem. “Cada guardião – junto com o capítulo local – decide o que se executa do projeto comum e o que e viável em situações concretas”, observou, lembrando que o guardião é figura decisiva entre o discurso e a prática dos frades.

Frei Bernado abordou com detalhes a importância da formação do guardião, o seu papel de formador e o trabalho nas casas de formação. “Na casa de formação moram normalmente frades de várias gerações e o guardião é o superior de todos. Facilmente, ele se percebe diante de um conflito de gerações e de um sútil jogo de poder na própria casa e ele vai reconhecer que cada geração interpreta o carisma franciscano diferentemente”, indicou, orientando: “Nestas situações, ele não deve polarizar e criar frentes, mas garantir, como mediador, o amor fraterno entre os irmãos”.

Em seis grupos, os frades refletiram sobre as seguintes perguntas propostas por Frei Bernado sobre o tema: O guardião  é só o coordenador da fraternidade ou ele é essencialmente algo mais? Até que ponto a confiança entre os irmãos é o fundamento de um bom trabalho de um guardião? Quando e como o guardião deve manter o sigilo? (fórum interno e externo do frade e da fraternidade); Quando e como ele deve exercer sua função de autoridade na fraternidade?  Que valor e que limites tem um curso organizado pela Ordem ou pela Conferência?  Que importância se dá à vida de oração de um guardião, quando ele deve exercer um constante “habitus” de discernimento?

Neste dia 7 de setembro, feriado nacional, os frades continuam os trabalhos no Congresso. Frei Ramiro de la Serna preside a Celebração Eucarística, às 7 horas, e abordará em seguida o tema: “Os que acompanham a promoção vocacional: todos os irmãos e animadores provinciais. Alguns elementos do primeiro anúncio vocacional”.

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Moacir Beggo

Fonte: franciscanos.org.br




 

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