Carta de São Francisco aos Clérigos

Prelúdio 

Os Escritos de São Francisco são uma preciosidade para a vida da Igreja e para a Espiritualidade Cristã de maneira geral. Quando refletimos sobre eles tomamos contato com a figura de Francisco escritor[1] e esse fato não deixa de nos causar espanto. Embora, no Monte Alverne tenha pedido a Frei Leão papel e tinta para escrever “as palavras do Senhor e seus louvores[2], a esta página da história de São Francisco não houve o destaque necessário por parte da iconografia franciscana.

Francisco mesmo se qualificava como “homem simples e sem letras”[3], no entanto, não passa despercebido no corpus de seus Escritos as suas Cartas. Francisco é escritor à medida de seus “atos ocasionais, solicitados quer pelas necessidades que lhe ocorreram na vida, quer pelo seu zelo apostólico, quer ainda pela inspiração e pelo fervor da alma.”[4] O que mais chama atenção no estilo da escrita de São Francisco é que em seus Escritos transparecem sua pessoa, caráter e personalidade.

Tudo quanto escreve ou dita é espírito e vida. É fruto da sua experiência espiritual: do seu diálogo com Deus, do seu enamoramento com Cristo, da paixão que este enamoramento atingiu e das aventuras que constituem a sua gesta interior. É também da sua experiência vivida, isto é: das suas lutas pessoais, do seu convívio com os irmãos, das suas iniciativas apostólicas, do empenho que pôs na criação da Ordem, da paixão com que viveu a vida da Igreja e da sociedade do seu tempo. Francisco não repete o que os outros escreveram, não sintetiza o que as circunstâncias impõem, não discreteia acerca de assuntos impessoais. Entorna o que tem dentro do coração. Nos seus escritos está toda a sua personalidade.[5]

As palavras do mendicante de Assis, bem como sua vida, se apresentam como obra de Deus. A explicação mais profunda de seus escritos está expressa em seu Testamento 39, quando diz que “O Senhor me deu a graça de escrever pura e simplesmente estas palavras”. Como obra da Graça, seus escritos são marcados por uma espontaneidade admirável, pois partem de sua vida, sua experiência pessoal, bem como de seus frades. Na Carta aos Fiéis, Francisco fala sobre os motivos de sua Cartas:

Eu, o irmão Francisco… como servo de todos, a todos tenho obrigação de servir e ministrar as palavras do meu Senhor, cheias de suave perfume. E considerando comigo que, por minhas enfermidades e fraquezas do meu corpo, não posso ir visitar pessoalmente a cada um de vós, resolvi enviar-vos, pela presente carta, as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o Verbo do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e vida.[6]

Desse modo, temos Francisco todo inteiro nas linhas de suas Cartas. Algumas possuem destinatários, outras eram circulares que desejava que se multiplicassem. Tantas outras, escritas por ele ou ditadas a outros, infelizmente não chegaram aos nossos dias, ou pelo menos não foram descobertas.

Carta aos Clérigos

A Carta aos Clérigos, tendo duas recensões, trazem algumas possibilidades de ser a primeira recensão escrita entre 1219–1220, situando-a entre o Concílio IV de Latrão (1215) e a bula “Sane cum Olim” (22/11/1219), antes da viagem de Francisco ao Oriente (1219), e a segunda recensão é posterior.

São destinatários todos os clérigos e inclusive tem-se notícias de que Livário Oliger, monge beneditino encontrou uma cópia de tal carta num velho missal da Abadia de Subiaco, seguramente antes do ano de 1238. Atualmente conserva-se na Biblioteca Vallicelana de Roma. Este texto segue assinado com o Tau, o que confirma ser mesmo um texto originário de Francisco, tal como assinala Celano e Boaventura.

Francisco escreve esta carta com o intuito de alertar sobre a dignidade do Ministério Ordenado e a reverência que se deve ter ao Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu verdadeiro sentido. No entanto, não tinha como primeiro objetivo a doutrinação teológica, mas a lamentação pela irreverência prestada à Eucaristia. Este texto é, em suma, uma exortação ao respeito e santidade com que deveria ser cuidada.

Esta problemática era endossada pela complexa e real situação das Ordenações Sacerdotais na Idade Média. Destoando da santidade proposta a todo cristão, a sociedade e também a Igreja sofria com muitos desvirtuamentos daquilo que é o essencial da fé católica. Francisco está atento a essas realidades e assume para si uma profunda reflexão acerca de tais posturas e o modo de emenda-las.  

Na Idade Média não havia tanta frequência na Comunhão, sendo esta distribuída em média 6/7 vezes por ano. Mesmo neste quadro a Sagrada Comunhão era ministrada, muitas vezes, em meio a práticas desrespeitosas da parte de clérigos. Além disso, não se tinha o devido cuidado com a mística que envolve à prática da comunhão. Também eram recorrentes a falta de zelo com os vasos sagrados, a Palavra, os quais eram tratados de maneira indigna. Segue-se o texto da Carta na íntegra:

1Consideremos, nós todos que somos clérigos, o grande pecado e ignorância de alguns a respeito do santíssimo Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo e dos seus sacratíssimos nomes e das suas palavras escritas, com as quais se faz a consagração do seu Corpo. 2Nós sabemos que não podemos ter o Corpo do Senhor, sem a consagração feita pela Palavra. 3Porquanto, do mesmo Altíssimo nada temos nem vemos neste mundo, corporalmente, senão seu Corpo e Sangue, nomes e palavras, pelos quais fomos criados e remidos da morte para a vida (1Jo 3, 14). 

4Ora, todos os que ministram tão santíssimos mistérios, considerem bem consigo, sobretudo os que indiscretamente o fazem, como são pobres os cálices e corporais e toalhas, nos quais se faz o sacrifício do Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. 5E muitos abandonam o Corpo e Sangue do Senhor em lugares menos próprios, e levam-no pelo caminho sem respeito, e recebem-no indignamente, e o ministram aos outros sem discrição. 

6E os seus nomes e palavras escritas algumas vezes andam pelo chão a ser calcados aos pés, porque o homem animal não entende as coisas que são de Deus (1Cor 2, 14). 

8E todas estas profanações não nos movem à piedade, quando é certo que o mesmo piedoso Senhor se entrega em nossas mãos, e somos nós os que o tratamos e todos os dias o recebemos em nossa boca? 9Esquecemo-nos de que havemos de cair em suas mãos (Hb 10, 31)?

10Emendemo-nos, portanto, sem demora e a valer, destas e de outras faltas semelhantes. 11E onde quer que o santíssimo Corpo de nosso Senhor Jesus Cristo estiver desprezado e abandonado, que seja levado daí para lugar de mais respeito, onde fique bem guardado. 12E, do mesmo modo, os escritos com os nomes e palavras do Senhor, sempre que forem encontrados em lugares menos limpos, sejam recolhidos e colocados em lugares convenientes. 

13E nós sabemos que estamos obrigados a observar todas estas coisas com todo o rigor, conforme o preceito do Senhor e as leis da nossa Mãe a santa Igreja[7]. 14E quem assim não fizer, saiba que há de dar contas no dia do juízo perante nosso Senhor Jesus Cristo (Mt 12, 36).  15E quem espalhar cópias deste escrito, para se observar o que nele se diz, saiba que tem a bênção do Senhor. 

T

Frei Adriano Cézar de Oliveira, OFM


[1] Vale destacar que São Francisco pouquíssimas vezes tomou a pena em suas mãos e escreveu em próprio punho. Quase sempre ditava para algum de seus frades o que queria manifestar às pessoas e isso já é considerado Escritos de São Francisco. Para a leitura desses textos é importante valorizá-los enquanto Fonte Franciscana, porém sem a ingenuidade de entender o termo Escritos de forma apressada e sem o rigor da interpretação.

[2] Segunda Vida de São Francisco, de Tomás de Celano, 49.

[3] Carta a Toda a Ordem, 39; Testamento, 19.

[4] Introdução aos Escritos de São Francisco, in Fontes Franciscanas Portuguesas, p. 3.

[5] Idem, p. 4.

[6] Segunda Carta aos Fiéis, 2-3.

[7] Na versão mais antiga: ―E nós sabemos que devemos observar tudo isto, segundo o mandamento do Senhor e as determinações (constitutiones) da Santa Madre Igreja‖. Francisco refere-se à bula ―Sane cum Olim de 1219/1220. Isto significa que a versão mais antiga só podia ser escrita depois do regresso de Francisco do Oriente, em Março de 1220. Cf. Introdução aos Escritos de São Francisco, in Fontes Franciscanas Portuguesas, p. 84.



 

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