O “Êxtase de São Francisco” de Giotto Di Bondone

Apresentação da Obra 

O presente estudo tem o objetivo de apresentar o afresco de Giotto di Bondone retratando o “Êxtase de São Francisco” (1297-1300), relacionando-o com a Legenda Maior escrita por São Boaventura; a concepção de “êxtase” na sua vertente cristã; e a noção de “fé e desespero” e também “solidão e comunhão”. 

Análise da obra

Dois anos após a morte de Francisco de Assis, no dia 16 de julho de 1228, o bem-aventurado foi canonizado pelo Papa Gregório IX através da Bula “Mira circa nos”. No dia seguinte à sua canonização foi lançada a primeira pedra da Basílica Menor em Assis. Esta basílica possui duas Igrejas superpostas, a Maior e a Menor.[1]

Passados dois anos de sua morte o corpo do santo de Assis foi levado em segredo para a cripta da Basílica Menor, mesmo inacabada, por medo de saques dos “buscadores de relíquias”. O início da construção da Basílica Maior se deu por volta de 1239 e ambas foram dedicadas em 1253 pelo Papa Inocêncio IV.

A Basílica Maior é decorada com afrescos de Giotto di Bondone, cerca de 28 obras são de sua autoria[2]. O “Êxtase de São Francisco” retratado por Giotto tem as dimensões de 270×230 centímetros, e faz parte do conjunto de Afrescos que retratam as principais passagens da vida de São Francisco escritas por São Boaventura.

La parte alta de la nave está decorada por maestros romanos y toscanos, y entre éstos descuella el jovencísimo Giotto, cuya fuerte personalidad y capacidad innovadora expresada con gran talento le granjearon el inigualable honor de poder narrar sobre estas paredes la vida admirable del Pobrecillo de Asís, tomando como guía a san Buenaventura, autor de la vida del Santo. Giotto reproduce en estos murales, con plasticidad viva y vigorosa, los mayores acontecimientos de la vida del Santo con una naturalidad y una carga de humanidad que se transparenta límpida y serena en cada una de las escenas como si él mismo hubiese sido actor o como si hubiera estado presente.[3]

A Legenda que deu origem à representação de nosso objeto de estudo é a Legenda Maior, capítulo 10, n. 4. Antes de descrevermos seu conteúdo se faz ímpar uma nota sobre o uso destes textos hagiográficos na Idade Média para clarificar o contexto das pinturas de Giotto na Cristandade Medieval. Michel de Certeau, em referência ao uso de tais textos no medievo, afirma:

A vida dos santos traz à comunidade um elemento festivo. Ela se situa do lado do descanso e do lazer. Corresponde a um “tempo livre”, lugar posto à parte, abertura “espiritual” e contemplativa. Não se encontrado lado da instrução, da norma pedagógica, do dogma. Ela “diverte”. Diferentemente dos textos nos quais é necessário acreditar ou praticar, ela oscila entre o crível e o incrível, propõe o que é lícito pensar ou fazer. Sob estes dois aspectos cria, fora do tempo e da regra, um espaço de “vacância” e de possibilidades novas. O uso da hagiografia corresponde ao seu conteúdo. Na leitura, é o lazer distinto do trabalho. Para ser lida durante as refeições, ou quando os monges se recreiam. Durante o ano, intervém nos dias de festa. É contada nos lugares de peregrinação e ouvida nas horas livres. Sob estes diversos aspectos, o texto corta o rigor do tempo com o imaginário; reintroduz o respectivo e o cíclico na linearidade do trabalho. Mostrando como, através de um santo (uma exceção), a história está aberta ao “poder de Deus”, cria um lugar onde o mesmo e o lazer se encontram. Este lugar excepcional abre, para cada leitor, a possibilidade de um sentido que é ao mesmo tempo o alhures e o imutável. O extraordinário e o possível se apoiam um no outro para construir uma ficção posta aqui a serviço do exemplar. Esta combinação, sob a forma de um relato, representa uma função de “gratuidade” que se encontra igualmente no texto e no seu uso. É uma poética do sentido. Não é redutível a uma exatidão dos fatos ou da doutrina sem destruir o próprio gênero que enuncia. Sob as aparências de uma exceção e de um desvio (quer dizer, pela metáfora de um caso particular), o discurso cria uma liberdade com relação ao tempo cotidiano, coletivo ou individual, mas constitui um não-lugar.[4]

O conteúdo descritivo da Legenda Maior, capítulo 10, n. 4, teve como  referência o afresco “Êxtase de São Francisco”, por meio do qual observaremos a dinâmica divina da oração que envolvia o Santo de Assis e o proporcionou a experiência interpretada e descrita pictoricamente na obra de Giotto:

1Uma vez sozinho e deixado em paz, o homem de Deus quebrava com seus gemidos o silêncio das florestas, inundava a terra com as lágrimas, batia no peito com as mãos; ou então, se encontrava algum recanto mais discreto e mais oculto, punha-se a conversar com o seu Senhor: 2respondia ao Juiz, suplicava ao Pai, cavaqueava com o Amigo. Em situações destas o viram às vezes alguns Irmãos que o espiavam piedosamente: a interpelar a clemência divina em favor dos pecadores, com clamorosos gemidos, ou a chorar em altos brados a Paixão do Senhor, como se estivesse a desenrolar-se diante dos seus olhos. 3Na solidão o viram uma vez de noite a orar, os braços abertos em cruz e o corpo erguido da terra e circundado dum halo brilhante, ostentando exteriormente a luz admirável que lhe inundava o espírito. 4Aí na solidão, enfim, como provam testemunhos indesmentíveis, foram-lhe desvendados segredos e mistérios da sabedoria divina – que ele aliás não divulgava, a não ser que a isso o obrigasse o amor de Cristo ou o bem que pudesse fazer a outros. 5A este propósito afirmava ele: «Às vezes, por uma vantagem medíocre perde-se um bem inestimável, e faz-se com que aquele que no-lo deu não o volte a dar com tanta facilidade». 6Quando terminava essas orações privadas que faziam dele como um outro homem, punha todo o cuidado em se comportar como os mais: não fosse a aura da lisonja, no caso de ele exteriorizar o que lhe ia na alma, privá-lo do mérito interior. 7Se era surpreendido em público por uma visita do Senhor, lá arranjava maneira de desviar a atenção dos presentes, a fim de não expor à irrisão essas carícias familiares do Esposo. 8Quando orava em companhia dos Irmãos, evitava por completo qualquer atitude que desse nas vistas: gemidos, suspiros, e quaisquer manifestações exteriores – até mesmo o expectorar – já porque amava o silêncio, já porque mergulhando no seu interior, todo ficava absorto em Deus. 9Muitas vezes dizia a um ou outro mais íntimo: «Quando um servo de Deus, no decurso da oração, recebe uma visita do céu, deve dizer: 10―Enviaste-me, Senhor, esta consolação celeste, sendo eu pecador e indigno; confio-a à tua guarda, porque me dá ideia de te haver roubado um tesouro‖. 11E quando findar a oração, deve apresentar-se aos outros, tal como é, um pobre pecador, naturalmente – como se não tivesse recebido nenhuma nova graça».

Tendo por pano de fundo a passagem hagiográfica acima, podemos observar os elementos do afresco. O primeiro que nos chama atenção é própria figura de Francisco de Assis ao centro tendo aos pés uma nuvem. A nuvem é um elemento que aparece na Sagrada Escritura como lugar de revelação de Deus. O segundo elemento à direita está relacionado com o primeiro, é a figura que representa Deus em diálogo com Francisco, este “diálogo” é o lugar mesmo da experiência da transcendência do “eu” na realidade divina. O terceiro elemento são os frades que estão à esquerda e contrastam a “experiência de Francisco” com a necessidade da partilha desta experiência na comunidade franciscana nascente, não deixam de admirar-se diante do “êxtase” de seu irmão Francisco de Assis. Aparece ainda um palácio ao fundo esquerdo e figuras da natureza no direito, contrapondo a natureza à vida urbana, ambos presentes na vida e experiência de Francisco e dos primeiros frades.

O conceito de “êxtase” na experiência cristã. 

O uso das Legendas Hagiográficas na Idade Média somada à descrição da cena do Êxtase de São Francisco e a observação do afresco de Giotto nos insere no universo do fenômeno do “êxtase” numa perspectiva cristã.

O conceito de “êxtase” está dentro do campo semântico e estrutural da ideia de experiência religiosa pessoal, que por sua vez “tem raiz e centro na consciência mística.”[5] A experiência mística é, segundo Meslin “a forma mais elaborada de todas as experiências religiosas vividas.”[6] Desse modo, o êxtase se insere como um fenômeno sobrenatural, resultante da experiência mística, podendo ser caracterizada como:

Vivência de ultrapassagem dos limites do eu acompanhada do sentimento gozoso de comunhão com o todo circundante identificado ao divino. Ou ainda, uma experiência extática de transposição dos limites entre o eu e o não-eu e de união amorosa com Deus, com o qual se faz uma coisa só.[7]

Na experiência mística existem os fenômenos primários, portanto, essenciais, e os secundários, marginais. O fenômeno primário demostra a transposição das fronteiras do eu e a união amorosa com o divino, como destacado acima, e o secundário caracteriza-se como um fenômeno chamado de paramístico, o que é o caso do “êxtase”, o que não desqualifica sua ocorrência.

Nos estudos modernos de mística esse fenômeno é objeto de uma séria análise e discernimento. O substancioso avanço desses estudos garantiu que a interpretação e concepção de êxtase como “doença” do espírito, seja hoje completamente rejeitada no campo científico, não obstante haver a ocorrência de casos clínicos.

O apóstolo Paulo na análise da questão de legitimidade deste tipo de experiência coloca dois critérios importantes que devem ser confrontados, o primeiro é o seguimento de Jesus Cristo; o segundo, a edificação da comunidade de fé.[8] No realismo típico da Idade Média este tipo de experiência é frequente e se torna importante como um sinal da vivência da fé.

No âmbito da mística cristã o êxtase, mesmo sendo um fenômeno paramístico de valor secundário, exerce um grande peso como critério de avaliação da experiência místico-religiosa. A fenomenologia do “êxtase” mostra que ao passar por esta experiência a pessoa sofre “quase” um aniquilamento total do eu, uma vez que fez uma experiência extática de transposição dos limites entre o eu e o não-eu e de união amorosa com Deus, com o qual se faz uma coisa só, experiência de auto valor na caminhada de fé. 

O êxtase como paradigma de “fé e desespero – solidão e comunhão”

A experiência mística com a ocorrência do evento chamado “êxtase”, como visto, produz uma vivência de ultrapassagem dos limites do eu acompanhada do sentimento gozoso de comunhão com o todo circundante identificado ao divino. Esse processo não elimina do horizonte da fé viva o sentimento de desespero tão próprio dos sentidos humanos que não compreendem tudo, mas tateiam a existência dialogando permanentemente humano e divino.

A vida de Francisco de Assis, desde sua conversão até sua estigmatização no Monte Alverne, bem como o crescimento e desenvolvimento da Ordem dos Frades Menores foram marcados por um alto grau de experiência de fé concomitantemente à profundas crises existenciais, como atestam seus Escritos e suas Biografias.

A relação paradigmática de “fé e desespero”, de “solidão e comunhão”, se verificam no afresco de Giotto que retrata o “Êxtase de São Francisco” e dá a obra não somente valor artístico, mas também altíssimo valor religioso, uma vez que retrata um fenômeno da experiência místico-religiosa cristã, especificamente na trajetória de São Francisco de Assis.

A experiência mística é essencialmente uma experiência paradoxal por trabalhar com os “limites” da existência, a fragilidade do ser humano em contraposição à transcendência, o nada existencial mergulhado no horizonte divino, a limitada linguagem humana frente à magnitude da capacidade de comunicação do divino.

O traço paradoxal, apontado acima, se verifica na experiência de Francisco de Assis que, saindo de si, no início de sua angustiosa conversão, fez sucessivas experiências de comunhão com o ser humano, por exemplo o famoso “Beijo do Leproso”; de comunhão com a natureza, podemos citar o episódio do “Lobo de Gúbio” e o “Cântico das Criaturas”; e de transcendência, comunicação com o divino, podemos relembrar a “Cruz de São Damião”.

O cume da experiência de comunhão foi a “Estigmatizaçao” no Monte Alverne na perfeita identificação de Francisco com Cristo, através da impressão dos estigmas, lembrando que que essa identificação ocorreu em meio a um período de intensa crise de Francisco. Esses fatos autenticam a beleza e a importância artística do afresco de Giotto, bem como de toda sua obra.

Frei Adriano César de Oliveira, OFM


Notas

[1] Cf. Basílica de San Francisco: em su fomación y em su significado histórico, por Pascual Magro, OFMConv. Disponível em: http://www.franciscanos.org/santuarios/magro.htm. Também: Basílica y tumba de San Francisco, por Fernando Uribe, OFM. Disponível em: http://www.franciscanos.org/santuarios/uribe2.htm. Acessos em 09 de outubro de 2017.

[2] Cf. Anexo I.

[3] Cf. Basílica de San Francisco, por Gualiero Bellucci, OFM. Disponível em: http://www.franciscanos.org/santuarios/bellucci2.htm. Acesso em 09 de outubro de 2017.

[4] CERTEAU, Michel de. “Uma variante: a edificação hagiográfica”, In: A escrita da história, p. 270-271.

[5] JAMES apud MESLIM, Michel. Fundamentos de antropologia religiosa: a experiência humana do divino. Petropolis: Vozes, 2014. p. 137.

[6] MESLIN, 2014, p. 137.

[7] ARAÚJO, Ricardo Torri. Experiência mística e psicanálise. São Paulo: Edições Loyola, 2015, p. 10.

[8] Cf. 1Cor 12, 3; 14, 5.


Bibliografia 

ARAÚJO, Ricardo Torri. Experiência mística e psicanálise. São Paulo: Edições Loyola, 2015.

BELLUCCI, Gualiero. Basílica de San Francisco. Disponível em: http://www.franciscanos.org/santuarios/bellucci2.htm.

CARUANA, E. BORRIELLO, L. DEL GENIO, M. R. SUFFI, N. Dicionário de Mística: Verbete Êxtase. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

CERTEAU, Michel de. “Uma variante: a edificação hagiográfica”, In: A Escrita da história. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.

MAGRO, Pascual. Basílica de San Francisco: em su fomación y em su significado histórico. Disponível em: http://www.franciscanos.org/santuarios/magro.htm.

MESLIM, Michel. Fundamentos de antropologia religiosa: a experiência humana do divino. Petropolis: Vozes, 2014.

URIBE, Fernando. Basílica y tumba de San Francisco. Disponível em: http://www.franciscanos.org/santuarios/uribe2.htm.


 

 

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