Nesta terça-feira, 31 de outubro, conclui-se as comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante

No dia 31 de outubro de 2016 foi aberto o ano das comemorações do quinto centenário da Reforma Protestante, que se conclui neste dia 31 de outubro de 2017, exatamente 500 anos depois do início do movimento reformador. Neste texto, Frei Luiz Iakovacz  faz uma síntese desses 500 anos até o encontro do Papa Francisco em Lund (veja homilia). 


Neste dia 31 de outubro, comemoram-se os quinhentos anos do início da Reforma Protestante (1517-2017), data em que o monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546) posicionou-se contra algumas doutrinas da Igreja Católica Romana, com suas famosas 95 teses.

Nesses longos anos, aconteceram acusações mútuas, conflitos que provocaram mortes, a instrumentalização da religião para fins políticos, a excomunhão – feridas que, ainda hoje, são relembradas. Graças a Deus, algumas delas estão sendo sanadas.

Isto é obra do Espírito Santo (UR, 2) que, nos últimos cem anos fez nascer e crescer o “movimento ecumênico entre as Igrejas Protestantes”.

São muitas as inciativas que este movimento suscitou, e duas delas merecem destaque: a Conferência de Edimburgo (1910), considerada como “a hora e o lugar de iniciativas ecumênicas”, e a criação do Conselho Mundial de Igrejas, em 1948.

A Igreja Católica recusou os convites e não participou porque as via “com muita cautela”. Para ela, “a união verdadeira se realiza com o retorno dos dissidentes à única e verdadeira Igreja de Cristo” (leia-se, a Católica). Isto é tão verdade que a Encíclica Mortalium Animus (1928) de Pio IX diz: “A Sé Apostólica não pode, de nenhum modo, participar das suas reuniões e, de nenhum modo, podem os católicos aderir a tais tentativas ou lhes prestar ajuda”.
Aqui e ali, porém, havia iniciativas isoladas de lideranças e grupos católicos, no âmbito da espiritualidade e da caridade.

Estas pequenas chamas foram os lampejos para que a Igreja, como Instituição, realizasse grandes passos rumo ao ecumenismo, nos últimos 50 anos.

Começou com o Papa João XXIII que convocou o Concílio Vaticano II, justamente, no final da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (25/01/1959). No ano seguinte, criou o Secretariado para União dos Cristãos (05/06/1960). Convidou observadores ortodoxos, anglicanos e protestantes para participarem do Concílio Ecumênico (1962 -1965) que publicou a Unitatis Redintegratio, verdadeira declaração para “promover a restauração da Unidade dos Cristãos”.
Retirou expressões antissemitas na Liturgia de Sexta-Feira Santa.

Em dezembro de 1965, Paulo VI revogou a excomunhão ao Patriarca de Constantinopla, ocorrida em 1054. Dez anos depois, beijava os pés do metropolita Meliton. Como retribuição a este gesto, o Patriarca envia-lhe uma lâmpada de sua capela privada, com os dizeres: “Que a mesma luz nos ilumine sempre”.

João Paulo II continuou os avanços com a Encíclica Ut Unum Sint, a qual reconhece que há “elementos salvíficos nas outras Igrejas cristãs”.

Por ocasião dos quinhentos anos do nascimento de Lutero (1483), visitou um templo luterano e, assim se expressou: “O mundo experimenta, ainda hoje, a importância de Lutero na história”. Assinou, aos 31/10/1999, a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, em Augsburg (Alemanha), da qual extrai-se esta frase lapidar: “Os cristãos são redimidos, somente, pela graça (…) que nos capacita e chama para as boas obras”.

Dezessete anos depois (31/10/2016), o Papa Francisco e o Presidente da Federação Luterana Mundial, Bispo Munib Younan, na Catedral de Lund (Suécia), assinam a declaração conjunta “Do conflito à Comunhão”. Ambos pedem perdão pelos erros cometidos, mas, acima de tudo, o texto aponta o que podemos fazer, daqui pra frente.

Entre as ações concretas, está o desejo de “receber a Eucaristia numa única mesa, como aspiram muitos membros de nossas comunidades”. Ela é o “Sacramento da Unidade” (UR, 2), no entanto, é, também, motivo de divisão.

A Assembleia de Nairóbi (1975), assim se expressa: “Lamentamos a circunstância de que o estado das relações das Igrejas entre si, não permite a instauração de plena comunhão na Eucaristia”. Entre os casais de casamentos mistos (católicos com luteranos e vice-versa), há o anseio de que ambos “participem da Eucaristia católica e da Ceia protestante. Os luteranos aceitam, mas Roma, ainda não” (esta afirmação é feita por um pastor em artigo da internet).
O motivo é doutrinário. Na visão católica, o pão consagrado torna-se o Corpo e Sangue de Cristo, ainda que mantenha a aparência de pão. Para o luterano, a presença de Cristo é “efêmera”, isto é, Ele está presente durante o ato religioso. Terminado este, volta a ser pão normal.

O Papa Francisco, em novembro de 2015, visitou uma comunidade luterana e a presenteou com um “cálice para a Ceia do Senhor”. A pastora que o recebeu diz “é um presente repleto de valor simbólico”.

O Papa Paulo VI revogou a excomunhão ao Patriarca de Constantinopla, mas a de Lutero, não! A excomunhão de Leão X, em 1521, continua em vigor.

“Para as Igrejas Cristãs, é difícil aceitar certos dogmas como o Primado de Pedro, a infalibilidade papal, o perdão dos pecados através da Confissão, a doutrina da transubstanciação, Imaculada Conceição, Assunção. E, para o católico ortodoxo, é difícil compreender que é possível ser um seguidor de Cristo, sem estar obrigado a aceitar tais dogmas” (Dicionário Teológico da Vida Consagrada, p. 361).

Olhando para um futuro próximo, é ilusão sonhar com uma união de todos os cristãos para formarem “um só corpo”. Ela virá, mas só após um longo peregrinar (cf. 1Rs 19,7).

A divisão foi causada pelo ser humano e deve ser eliminada mediante sua própria conversão, tendo o Espírito Santo como fonte ao qual, todos devem escutar.

Os impasses doutrinários dependem do estudo e da ciência. Mas realizar gestos concretos, como os citados acima, estão ao alcance de todos. E, quando isto acontecer, saibamos “atribui-los a Deus do qual procede todo o bem” (São Francisco)!

Fonte: franciscanos.org.br

Fonte (Imagem): conic.org.br

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