Celebração do Dia Mundial dos Pobres com Santa Isabel da Hungria, padroeira da OFS

INTRODUÇÃO

O Calendário Litúrgico de 2017 promove um profético encontro entre a Festa Litúrgica de Santa Isabel da Hungria, OFS, Franciscana Secular do Século XIII que abraçou a Espiritualidade Franciscana como caminho de liberdade para SERVIR e PARTILHAR com os últimos de seu tempo e o 33º Domingo do Tempo Comum que a partir deste ano, por convocação do Papa Francisco, será o “Dia Mundial dos Pobres”, oportunidade formativa, de à luz do Evangelho e em fraternidade, irmos ao encontro daqueles que são os preferidos de Deus. Por isso apresentamos a Juventude Franciscana do Brasil esta Roteiro de Encontro que poderá ser vivenciado como Família Franciscana (Frades, Congregações Femininas, OFS e JUFRA) para celebrar a festa de nossa padroeira com uma vivência concreta, pois, como nos recorda o Papa Francisco: “Não amemos com palavras, nem com a boca, mas com obras e com verdade!” (1 Jo 3, 18). Paz e Bem!

OBJETIVOS

o Celebrar em Fraternidade a Festa da Padroeira da Ordem Franciscana Secular, Santa Isabel da Hungria (1207-1231);

o Abraçar, com toda a Igreja, o “Dia Mundial dos Pobres”, reafirmando o nosso comprometimento assumido no Ideal Franciscano de Vida com a Opção Preferencial pelos Pobres nas realidades de nossas fraternidades locais;

AMBIENTAÇÃO

Preparar o ambiente de modo circular, tendo ao centro elementos de nossa Espiritualidade (Imagem/Ícone de Santa Isabel, Livros da OFS, Fontes Franciscana, Taus, Cruz de São Damião), trazer presente com destaque a Iluminação Bíblica: “Não amemos com palavras, nem com a boca, mas com obras e com verdade!” (1 Jo 3, 18), sementes variadas, tecidos, velas, como convier na realidade da fraternidade.

Sugestão: Como Igreja em Saída, este Encontro pode ser realizado ao ar-livre, em alguma ONG ou Instituição Social, Casas de Recuperação, Asilos, Albergues, indo ao encontro dos leprosos de nosso tempo, para rezar, celebrar e conviver.


ACOLHIDA

Coordenador: O Dia Mundial dos Pobres foi instituído por Francisco, na conclusão do Ano Santo extraordinário da Misericórdia, com uma Carta Apostólica intitulada “Misericórdia e mísera”. A celebração, ‘sinal concreto” do Ano Jubilar, se realizará no XXXIII Domingo do Tempo Comum, que este ano cai em 19 de novembro. Com a Festa Litúrgica, em 17 de Novembro, celebramos o carisma franciscano de Santa Isabel da Hungria, como imitação alegre e amorosa de Jesus “pobre, desprezado e crucificado”, com uma característica pessoal irrepetível: a extraordinária caridade para com o próximo. Seguindo o ensinamento de São Francisco, Isabel, quando o marido ainda era vivo, tecia lã juntamente com as servas para confeccionar roupas destinadas aos pobres.

Oração a Santa Isabel da Hungria

Ó Deus, que destes a Santa Isabel da Hungria reconhecer e venerar o Cristo nos pobres, concedei-nos, por sua intercessão, servir os pobres e aflitos com incansável caridade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

VER

Coordenador: Queremos, neste momento conhecer um pouco mais da história da Padroeira da Ordem Franciscana Secular, Santa Isabel da Hungria, conhecendo seis aspectos de sua vida e que a fizeram nossa padroeira:

Leitor 1: O IDEAL FRANCISCANO – Isabel (ou Elisabeth, em Alemão) nasceu na Hungria em 1207, filha do rei André II e de Gertrudes de Merânia. Com a idade de quatro anos é enviada como noiva do filho primogênito do conde Hermann I à corte da Turíngia – região situada na extremidade sudoeste da Alemanha. Criada nessa atmosfera frívola e casando-se com Luís aos quatorze anos, Isabel entra em contato com os primeiros missionários franciscanos na Alemanha. No caso de Isabel não se pode falar de “conversão” mas o que ela encontra no ideal franciscano é o enriquecimento e aprofundamento de valores da fé. Os testemunhos de Francisco e Clara vão ao encontro do desejo que Elisabeth sempre conservou em seu coração.

Leitor 2: NOBREZA DE SER E NÃO DE TER – Das fontes dos testemunhos de personagens que passaram pela vida de Isabel, aflora uma figura de mulher completa como moça, mãe e viúva consagrada ao serviço dos pobres e dos doentes, rica de humanidade e com profunda vida interior. Seu ideal de santidade se caracteriza pelo equilíbrio entre as obrigações às quais estava vinculada como filha de rei e landgravina de um poderoso Estado e as práticas de uma vida religiosa pobre e austera.

Leitor 3: MULHER: Há nesta grande mulher uma profunda humanidade, uma sensibilidade de seus atos e suas palavras além de uma vontade de viver não para si, mas para os outros, que se traduz num amor sem limites pelo marido, pelos filhos e a mesma delicadeza e atenção para com os outros, especialmente os pobres e sofredores. Da classe nobre a que pertencia tinha o porte senhoril e a disponibilidade de recursos, mas não a vaidade e separação que costumeiramente criam distância e estabelecem submissão.

Leitor 4: ESPOSA E MÃE: Aos quatorze anos Isabel se torna finalmente esposa de Ludovico, tendo as bodas celebradas em maio de 1221. Em setembro já esperava seu primogênito com tremor, mas também com a máxima confiança em Deus. Não aproveitou de seu estado para entregar-se à indolência e ao nada fazer. Ao contrário, sentia uma força nova que a impulsionava a dedicar-se aos outros, particularmente às crianças mais pobres, como se o instinto materno se dilatasse ao infinito. Em março, Isabel deu à luz seu primeiro filho, Hermano.

Leitor 5: FRANCISCANA SECULAR: Isabel era uma “religiosa” vivendo no mundo. O incentivo e o estímulo para esta escolha foram essencialmente franciscanos, ou seja, o mesmo que tinha motivado Francisco e Clara: a altíssima pobreza. Em 1228 faz um ato solene de consagração, na forma mais estrita da sequela Christi, que consistia em seguir o Cristo pobre e humilde, na capela de seu castelo.

Leitor 6: OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES: Os motivos que fizeram com que Isabel se dirigisse aos leprosos foram os mesmos de Francisco. Antes de tudo, era uma escolha teológica, cristocêntrica, decorrente do desejo de imitar Jesus Cristo em tudo. Nos irmãos atingidos pelo terrível mal ela via a imagem do Salvador atingido pelos pecados do mundo. Não podemos esquecer alguma coisa que em Isabel era muito forte: a participação humana nos sofrimentos dos outros.

ILUMINAR

Iluminação Bíblica 1 João 3, 16-19

Leitura da Primeira Carta de São João. Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos nossos corações. Palavra do Senhor.

Coordenador: Deixemos que Palavra de Deus ecoe em nosso coração e produza verdadeiros frutos de conversão. Por isso, podemos de modo silencioso, retornar a leitura e refletir sobre os nossos irmãos marginalizados: Rostos de Deus no mundo.

(Momento de Meditação da Palavra de Deus, por isso, é importante conduzir e propor uma pequena partilha, com as palavras que mais tocam cada irmão. Sugerimos encerrar este momento com a música a seguir.)

REFLEXÃO – SEU NOME É JESUS CRISTO (Pe. André Luna)

Seu nome é Jesus Cristo e passa fome

E grita pela boca dos famintos

E a gente quando vê passa adiante

Às vezes pra chegar depressa a igreja

Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa

E dorme pelas beiras das calçadas

E a gente quando vê aperta o passo

E diz que ele dormiu embriagado

 

Entre nós está e não O conhecemos

Entre nós está e nós O desprezamos

 

Seu nome é Jesus Cristo e é analfabeto

E vive mendigando um subemprego

E a gente quando vê, diz: “é um à toa

Melhor que trabalhasse e não pedisse”

Seu nome é Jesus Cristo e está banido

Das rodas sociais e das igrejas

Porque d’Ele fizeram um Rei potente

Enquanto Ele vive como um pobre

 

Entre nós está e não O conhecemos

Entre nós está e nós O desprezamos

 

Seu nome é Jesus Cristo e está doente

E vive atrás das grades da cadeia

E nós tão raramente vamos vê-lo

Dizemos que ele é um marginal

Seu nome é Jesus Cristo e anda sedento

Por um mundo de Amor e de Justiça

Mas logo que contesta pela Paz

A ordem o obriga a ser de guerra

 

Entre nós está e não O conhecemos

Entre nós está e nós O desprezamos

 

Seu nome é Jesus Cristo e é difamado

E vive nos imundos meretrícios

Mas muitos o expulsam da cidade

Com medo de estender a mão a ele

Seu nome é Jesus Cristo e é todo homem

E vive neste mundo ou quer viver

Pois pra Ele não existem mais fronteiras

Só quer fazer de todos nós irmãos

Entre nós está e não O conhecemos

Entre nós está e nós O desprezamos

 

AGIR

Coordenador: Recentes estudos dão conta de que no Brasil a pobreza continua enorme e tende a crescer. A classe A da população, 3,8% dos brasileiros com renda familiar mensal superior a R$ 17.286, detém 38% da renda global do país; enquanto isso, as classes D e E, que somam 54,3% da população mais pobre e tem renda mensal familiar abaixo de R$ 2.302, detém apenas 16,3% da renda global (revista Veja, 5/7, página 66). A concentração da renda é fator de perenização da pobreza no Brasil. Vejamos o que diz o Papa Francisco sobre a Pobreza Contemporânea: “Ela é difusa e onipresente, aparecendo nos rostos marcados pelo sofrimento, a marginalização, a opressão, a violência, as torturas, a prisão, as guerras, a privação da liberdade e da dignidade, a ignorância e o analfabetismo, a falta de saúde e de assistência sanitária, a falta de trabalho, o tráfico de pessoas, as escravidões, as migrações forçadas. São homens, mulheres e crianças explorados por interesses vis, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. O elenco constrangedor dos pobres é impiedoso e nunca completo, fruto de injustiça social, da corrupção, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada”. O que, como Franciscanos e Franciscanas, temos feito? Como temos agido?

(Propomos neste momento uma “Tempestade de Ideias” a partir de GESTOS CONCRETOS que a Fraternidade deverá assumir a partir deste encontro e da Celebração do Dia Mundial dos Pobres. Certamente, duas ou três ações são suficientes para que toda a fraternidade possa assumir e realizar, integrando vivência e testemunho, palavras e vida.)

CELEBRAR

Coordenador: Uma certa vez, Santa Isabel, tendo tomado conhecimento de um mendigo enfermo de aspecto horrendo, que sofria de dificuldades mentais, tomou-o escondidamente, cortou-lhe os cabelos, mantendo-o amorosamente reclinado junto de seu seio. Depois de tê-lo lavado, deixou-o escondido num canto do jardim para evitar os olhares curiosos dos outros. Foi, no entanto, descoberta e repreendida. Justificou-se, mostrando o mais belo sorriso. Em todas as obras de misericórdia, chamava atenção de modo particular o sorriso sincero que enfeitava perenemente seu rosto. Estamos diante de uma mulher em que santidade e feminilidade se unem harmoniosamente, evidenciando uma simbiose perfeita entre natureza e graça.

(Neste momento, aquele que conduz convida alguma irmão da OFS que entregará para cada irmão presente um pouco de sementes, representando o compromisso a ser assumido nesta Festa)

ENTREGA DAS SEMENTES – O MEU REINO (Frei Fabretti)

1 – O meu Reino tem muito a dizer,

não se faz como quem procurou,

aumentar os celeiros bem mais e sorriu.

Insensato, que vale tais bens,

se hoje mesmo terás o teu fim?

Que tesouros tu tens pra levar além.

 

Sim Senhor, nossas mãos vão plantar o teu reino.

O teu pão vai nos dar teu vigor, tua paz.

 

2 – O meu reino se faz bem assim:

Se uma ceia quiseres propor,

não convide amigos, irmãos e outros mais.

Sai à rua a procura de quem

não puder recompensa te dar,

que o teu gesto lembrado será por Deus.

 

3 – O meu reino quem vai compreender?

Não se perde na pressa que tem,

sacerdote e levita que vão se cuidar.

Mas, se mostra em quem não se contém,

se aproxima e procura o melhor

para o irmão agredido que viu o chão.

 

4 – O meu reino não pode aceitar,

quem se julga maior que ops demais

por cumprir os preceitos da lei, um a um

a humilde de quem vai além

e se empenha e procura o perdão,

é o terreno onde pode brotar a paz.

 

5 – O meu reino é um apelo que vem,

transformar as razões do viver,

que te faz desatar tantos nós que ainda tens.

Dizer sim é saberes repor

tudo quanto prejuizo causou,

dar as mãos , repartir, acolher, servir!

 

MOTIVAÇÃO FINAL

Coordenador: Na Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, o Papa Francisco nos ensina: “Não esqueçamos que, para os discípulos de Cristo, a pobreza é, antes de mais, uma vocação a seguir Jesus pobre. É um caminho atrás d’Ele e com Ele: um caminho que conduz à bem-aventurança do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3; Lc 6, 20). Pobreza significa um coração humilde, que sabe acolher a sua condição de criatura limitada e pecadora, vencendo a tentação de omnipotência que cria em nós a ilusão de ser imortal. A pobreza é uma atitude do coração que impede de conceber como objetivo de vida e condição para a felicidade o dinheiro, a carreira e o luxo. Mais, é a pobreza que cria as condições para assumir livremente as responsabilidades pessoais e sociais, não obstante as próprias limitações, confiando na proximidade de Deus e vivendo apoiados pela sua graça. Assim entendida, a pobreza é o metro que permite avaliar o uso correto dos bens materiais e também viver de modo não egoísta nem possessivo os laços e os afetos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 25-45). Assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres. Por conseguinte, se desejamos dar o nosso contributo eficaz para a mudança da história, gerando verdadeiro desenvolvimento, é necessário escutar o grito dos pobres e comprometermo-nos a erguê-los do seu estado de marginalização. Ao mesmo tempo recordo, aos pobres que vivem nas nossas cidades e nas nossas comunidades, para não perderem o sentido da pobreza evangélica que trazem impresso na sua vida”. Por isso, queremos encerrar este encontro com a Benção. Nosso desejo e compromisso não é de sermos abençoados por Deus, pois isso já somos a todo tempo, mas de nós mesmos sermos a Benção de Deus aos Pobres de nosso tempo e acolhê-los também nós somos abençoados, e fazer o Reino acontecer.


MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA O I DIA MUNDIAL DOS POBRES

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

(19 DE NOVEMBRO DE 2017)

«Não amemos com palavras, mas com obras»

1. «Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade» (1 Jo 3, 18). Estas palavras do apóstolo João exprimem um imperativo de que nenhum cristão pode prescindir. A importância do mandamento de Jesus, transmitido pelo «discípulo amado» até aos nossos dias, aparece ainda mais acentuada ao contrapor as palavras vazias, que frequentemente se encontram na nossa boca, às obras concretas, as únicas capazes de medir verdadeiramente o que valemos. O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres. Aliás, é bem conhecida a forma de amar do Filho de Deus, e João recorda-a com clareza. Assenta sobre duas colunas mestras: o primeiro a amar foi Deus (cf. 1 Jo 4, 10.19); e amou dando-Se totalmente, incluindo a própria vida (cf. 1 Jo 3, 16).Um amor assim não pode ficar sem resposta. Apesar de ser dado de maneira unilateral, isto é, sem pedir nada em troca, ele abrasa de tal forma o coração, que toda e qualquer pessoa se sente levada a retribuí-lo não obstante as suas limitações e pecados. Isto é possível, se a graça de Deus, a sua caridade misericordiosa, for acolhida no nosso coração a pontos de mover a nossa vontade e os nossos afetos para o amor ao próprio Deus e ao próximo. Deste modo a misericórdia, que brota por assim dizer do coração da Trindade, pode chegar a pôr em movimento a nossa vida e gerar compaixão e obras de misericórdia em prol dos irmãos e irmãs que se encontram em necessidade.

2. «Quando um pobre invoca o Senhor, Ele atende-o» (Sl 34/33, 7). A Igreja compreendeu, desde sempre, a importância de tal invocação. Possuímos um grande testemunho já nas primeiras páginas do Atos dos Apóstolos, quando Pedro pede para se escolher sete homens «cheios do Espírito e de sabedoria» (6, 3), que assumam o serviço de assistência aos pobres. Este é, sem dúvida, um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo: o serviço aos mais pobres. Tudo isto foi possível, por ela ter compreendido que a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).

«Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45). Esta frase mostra, com clareza, como estava viva nos primeiros cristãos tal preocupação. O evangelista Lucas – o autor sagrado que deu mais espaço à misericórdia do que qualquer outro – não está a fazer retórica, quando descreve a prática da partilha na primeira comunidade. Antes pelo contrário, com a sua narração, pretende falar aos fiéis de todas as gerações (e, por conseguinte, também à nossa), procurando sustentá-los no seu testemunho e incentivá-los à ação concreta a favor dos mais necessitados. E o mesmo ensinamento é dado, com igual convicção, pelo apóstolo Tiago, usando expressões fortes e incisivas na sua Carta: «Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na

fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? (…) De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (2, 5-6.14-17).

3. Contudo, houve momentos em que os cristãos não escutaram profundamente este apelo, deixando-se contagiar pela mentalidade mundana. Mas o Espírito Santo não deixou de os chamar a manterem o olhar fixo no essencial. Com efeito, fez surgir homens e mulheres que, de vários modos, ofereceram a sua vida ao serviço dos pobres. Nestes dois mil anos, quantas páginas de história foram escritas por cristãos que, com toda a simplicidade e humildade, serviram os seus irmãos mais pobres, animados por uma generosa fantasia da caridade!

Dentre todos, destaca-se o exemplo de Francisco de Assis, que foi seguido por tantos outros homens e mulheres santos, ao longo dos séculos. Não se contentou com abraçar e dar esmola aos leprosos, mas decidiu ir a Gúbio para estar junto com eles. Ele mesmo identificou neste encontro a viragem da sua conversão: «Quando estava nos meus pecados, parecia-me deveras insuportável ver os leprosos. E o próprio Senhor levou-me para o meio deles e usei de misericórdia para com eles. E, ao afastar-me deles, aquilo que antes me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo» (Test 1-3: FF 110). Este testemunho mostra a força transformadora da caridade e o estilo de vida dos cristãos.

Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida. Na verdade, a oração, o caminho do discipulado e a conversão encontram, na caridade que se torna partilha, a prova da sua autenticidade evangélica. E deste modo de viver derivam alegria e serenidade de espírito, porque se toca com as mãos a carne de Cristo. Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia. O Corpo de Cristo, partido na sagrada liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos irmãos e irmãs mais frágeis. Continuam a ressoar de grande atualidade estas palavras do santo bispo Crisóstomo: «Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez» (Hom. in Matthaeum, 50, 3: PG 58).

Portanto somos chamados a estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. A sua mão estendida para nós é também um convite a sairmos das nossas certezas e comodidades e a reconhecermos o valor que a pobreza encerra em si mesma.

4. Não esqueçamos que, para os discípulos de Cristo, a pobreza é, antes de mais, uma vocação a seguir Jesus pobre. É um caminho atrás d’Ele e com Ele: um caminho que

conduz à bem-aventurança do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3; Lc 6, 20). Pobreza significa um coração humilde, que sabe acolher a sua condição de criatura limitada e pecadora, vencendo a tentação de omnipotência que cria em nós a ilusão de ser imortal. A pobreza é uma atitude do coração que impede de conceber como objetivo de vida e condição para a felicidade o dinheiro, a carreira e o luxo. Mais, é a pobreza que cria as condições para assumir livremente as responsabilidades pessoais e sociais, não obstante as próprias limitações, confiando na proximidade de Deus e vivendo apoiados pela sua graça. Assim entendida, a pobreza é o metro que permite avaliar o uso correto dos bens materiais e também viver de modo não egoísta nem possessivo os laços e os afetos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 25-45).

Assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres. Por conseguinte, se desejamos dar o nosso contributo eficaz para a mudança da história, gerando verdadeiro desenvolvimento, é necessário escutar o grito dos pobres e comprometermo-nos a erguê-los do seu estado de marginalização. Ao mesmo tempo recordo, aos pobres que vivem nas nossas cidades e nas nossas comunidades, para não perderem o sentido da pobreza evangélica que trazem impresso na sua vida.

5. Conhecemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, de poder identificar claramente a pobreza. E todavia esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!

Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade.

Todos estes pobres – como gostava de dizer o Beato Paulo VI – pertencem à Igreja por «direito evangélico» (Discurso de abertura na II Sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II, 29/IX/1963) e obrigam à opção fundamental por eles. Por isso, benditas as mãos que se abrem para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam esperança. Benditas as mãos que superam toda a barreira de cultura, religião e nacionalidade, derramando óleo de consolação nas chagas da humanidade. Benditas as mãos que se abrem sem pedir nada em troca, sem «se» nem «mas», nem «talvez»: são mãos que fazem descer sobre os irmãos a bênção de Deus.

6. No termo do Jubileu da Misericórdia, quis oferecer à Igreja o Dia Mundial dos Pobres, para que as comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais carenciados. Quero que, aos outros Dias Mundiais instituídos pelos meus Predecessores e sendo já tradição na vida das nossas comunidades, se acrescente este, que completa o conjunto de tais Dias com um elemento requintadamente evangélico, isto é, a predileção de Jesus pelos pobres.

Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão.

7. Desejo que, na semana anterior ao Dia Mundial dos Pobres – que este ano será no dia 19 de novembro, XXXIII domingo do Tempo Comum –, as comunidades cristãs se empenhem na criação de muitos momentos de encontro e amizade, de solidariedade e ajuda concreta. Poderão ainda convidar os pobres e os voluntários para participarem, juntos, na Eucaristia deste domingo, de modo que, no domingo seguinte, a celebração da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo resulte ainda mais autêntica. Na verdade, a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste Amor, que O ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa.

Neste domingo, se viverem no nosso bairro pobres que buscam proteção e ajuda, aproximemo-nos deles: será um momento propício para encontrar o Deus que buscamos. Como ensina a Sagrada Escritura (cf. Gn 18, 3-5; Heb 13, 2), acolhamo-los como hóspedes privilegiados à nossa mesa; poderão ser mestres, que nos ajudam a viver de maneira mais coerente a fé. Com a sua confiança e a disponibilidade para aceitar ajuda, mostram-nos, de forma sóbria e muitas vezes feliz, como é decisivo vivermos do essencial e abandonarmo-nos à providência do Pai.

8. Na base das múltiplas iniciativas concretas que se poderão realizar neste Dia, esteja sempre a oração. Não esqueçamos que o Pai Nosso é a oração dos pobres. De facto, o pedido do pão exprime o abandono a Deus nas necessidades primárias da nossa vida. Tudo o que Jesus nos ensinou com esta oração exprime e recolhe o grito de quem sofre pela precariedade da existência e a falta do necessário. Aos discípulos que Lhe pediam para os ensinar a rezar, Jesus respondeu com as palavras dos pobres que se dirigem ao único Pai, em quem todos se reconhecem como irmãos. O Pai Nosso é uma oração que se exprime no plural: o pão que se pede é «nosso», e isto implica partilha, comparticipação e responsabilidade comum. Nesta oração, todos reconhecemos a exigência de superar qualquer forma de egoísmo, para termos acesso à alegria do acolhimento recíproco.

9. Aos irmãos bispos, aos sacerdotes, aos diáconos – que, por vocação, têm a missão de apoiar os pobres –, às pessoas consagradas, às associações, aos movimentos e ao vasto mundo do voluntariado, peço que se comprometam para que, com este Dia Mundial dos Pobres, se instaure uma tradição que seja contribuição concreta para a evangelização no mundo contemporâneo.

Que este novo Dia Mundial se torne, pois, um forte apelo à nossa consciência crente, para ficarmos cada vez mais convictos de que partilhar com os pobres permite-nos compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda. Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho.

Vaticano, Memória de Santo António de Lisboa, 13 de junho de 2017.

Franciscus, Papa

Vinícius Fabreau, JUFRA

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