Núcleo da CRB de Uberlândia promove encontro sobre a Atual Conjuntura Política no Brasil em Araguari/MG

A dignidade de cada ser humano precisa ser garantida acima de todas as coisas e a melhor forma para se fazê-lo é a política. Muito embora os valores religiosos sejam fortes contribuintes para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, firmada nos bons costumes oriundos das doutrinas espirituais inspiradas até os dias de hoje no coração do ser humano, temos na política o meio pelo qual a própria sociedade civil, organizada ou não, consegue a garantia de seus direitos e a aplicabilidade dos deveres de grande maioria da população. Importante notar que cada um, dentro das melhores intenções, projeta a construção de um mundo mais justo e igualitário em seu coração e em sua mente. Ao longo da História, vemos que os homens buscaram soluções, nos mais diversos âmbitos sociais e culturais, para muitas de suas necessidades políticas atuais, fossem elas momentâneas ou não. No entanto, pouco ou nada mudou, e ainda continuamos à procura de mudanças, pois bem sabemos e notamos que os nossos governantes são sempre os mesmos. No final das contas a grande maioria da população concorda em dizer que tudo o que se precisa fazer é lutar e despertar no ser humano político e social a consciência de valorização do homem, não a partir de classe social ou condição étnica, mas partindo dos direitos, deveres e papéis integrativos de cada um na sociedade de cada um na sociedade.

A este respeito, a partir do debate promovido pela CRB no sábado dia 18 de novembro, tanto a comunidade local, quanto os próprios religiosos e políticos, fomentaram discussões enriquecedoras e, no mínimo intrigantes. O tema central, proposto pela CRB-Uberlândia para este encontro foi: “A atual situação política no Brasil”, com a finalidade de promover um momento de formação permanente, partilha e confraternização entre os diferentes carismas de religiosos consagrados da Diocese. Com a presença de personalidades ilustres da política araguarina e do advogado representante da Comissão Pastoral da Terra de Uberlândia, a comunidade Paroquial de Fátima, os Religiosos membros da CRB de Uberlândia e os próprios políticos presentes foram levados a refletir sobre os papéis vivenciados na política contemporânea de nosso Brasil. Lançando mão da crítica popular que aponta ao seu modo, em relação à política, a ideia de que vivemos em um mundo de verdadeiros atores, onde todos encarnam o seu papel de acordo com o interesse comum de cada um, a reflexão pautou-se em torno dos temas mais relevantes da atual conjuntura nacional, iniciando com a Carta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil como reflexão propedêutica.

Os preletores chamaram a atenção para o visível desequilíbrio político que por vezes assusta a todos, causando medo, insegurança e incertezas na população, o que afeta a vida do brasileiro em vários níveis, sendo dentre os principais, o econômico. E a este respeito, tal conjuntura leva a pensar que, na maioria das vezes, talvez seja este mesmo o interesse dos maiores envolvidos (os detentores do poder). No entanto, embora a mudança das figuras políticas seja mais que necessária, chegar ao poder pode ser deveras muito difícil, exatamente pelo fato de que, sendo os aliados fortes mais do que necessários para se enveredar por este caminho, são exatamente estas alianças que levam aqueles potenciais interessados a uma forte timidez, ao silêncio ou até mesmo à desistência desta possibilidade. A partir do debate proposto pôde-se compreender melhor que a mudança é necessária, mas para isto, será também preciso mudar-se toda a filosofia política de atuação, modo de pensar e agir frente aos governantes e por parte deles mesmos, tanto em âmbito político quanto religioso, numa perfeita consciência do que é governar e reta intenção para fazê-lo, sendo capaz de se fazer a clara distinção entre o que é certo e também o que é errado no que diz respeito ao modo de governar.

Uma “filosofia política” geradora de “consciência política”, onde se busca um compromisso social verdadeiro e a valorização do ser humano – que por vezes vive à margem da sociedade –, de modo que esta não seja comercializada por mera cesta básica ou simples conjunto de favores realizados dias antes do pleito eleitoral. Mudança que somente poderá acontecer quando os políticos forem capazes de tomar a firme decisão de buscar a candidatura sem fazer uso indevido de sua posição política, financeira e mesmo social. Muito menos fazendo proveito da atual situação de crise do país para angariar votos às custas daqueles que sofrem pela falta de emprego, saneamento, escolaridade e mesmo dignidade. Igualmente se pode afirmar quanto à tantas outras práticas habituais na política de usar as pessoas como trampolim para eleição, valendo-se por vezes até mesmo da própria comunidade de fé. Deste modo, resgatar a grandeza do político humano e igualitário seria a chave para um país melhor, muito embora este já tenha sido um discurso antigo para as comunidades de base em nossa Igreja.

Para que isso aconteça faz-se necessário refletir sobre alguns pontos da contemporaneidade política, os quais influenciam a consciência do Povo e limitam seu pensar e refletir de forma proposital, especialmente quando se considera de onde vêm. O primeiro deles seria a violência psicológica, esta, fortemente exercida pelos meios de comunicação de massa e que pode ser considerada a pior das violências. Por ser capaz de adentrar nos lares brasileiros atingindo grande parte da população, manipulando-os por meio de recursos sedutores e enganadores, atuam de forma humilhante, covarde e assombrosa, deixando a população inerte frente aos fatos políticos, descrentes e sem autoestima suficiente para lidar com a realidade que os cerca no âmbito político nacional e mesmo mundial. A grande quantidade de informações que chegam até a população por meio da mídia impossibilita o povo de refletir e ruminar a respeito dos temas enunciados, deixando-o à margem da realidade em que se encontra o seu próprio país no referente à política e à economia. Ementas, medidas Provisórias, Pecs, decisões parlamentares, judiciais, cassações, prisões, denúncias, notícias são informações que advém de forma como que “imoral”, levando o cidadão à triste compreensão de que, na verdade, está sem recursos para se proteger.

O debate despertou a consciência de que é preciso reconstruir aquele ideal de política verdadeiramente salutar ao povo, capaz de favorecer a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, pautada nos valores dos indivíduos enquanto Pessoas, e não enquanto valoração meritocrática (a partir da condição social, educacional ou mesmo financeira). O Brasil urge por desconstruir os erros herdados do passado a fim de gerar maior crescimento pessoal em todas as esferas do humano (social, familiar, trabalhista). Embora não se pense assim, o caminho é fácil e o segredo é trabalhar em conjunto. A boa notícia que se extrai daí é sempre pensar que a inquietude é muito positiva, construtiva e a esperança deve fazer morada no coração do homem enquanto este ainda viver. Algo que exige de cada cidadão um certo teor de alteridade, que é a capacidade de sentir-se e colocar-se no lugar do outro; ser capaz de imprimir e deixar crescer em todos o verdadeiro espírito cristão, saindo de uma consciência “enlatada” e “fechada em si”, impressa nas mentes do povo por meio da mídia e tomar por certa a firme certeza da consciência do seu espaço e direitos na e para a sociedade onde se insere. Pensar e acreditar assim é estabelecer um campo onde político e Povo trabalham juntos.

Um dos principais caminhos para que isto aconteça é tomar consciência de que a educação pode contribuir, e muito, ao mostrar para as crianças e jovens a verdadeira importância daqueles valores morais e espirituais (em sentido circular) que são capazes de favorecer a reflexão constante acerca da realidade em que se vive, além de auxiliar o homem a descobrir novos caminhos de intervenção social. Ainda que o discurso pareça repetitivo, faz-se necessário

reeducar o homem para aprender a confiar uns nos outros de novo, aprender a repensar, analisar e voltar a mente e a reflexão para os novos modelos e conceitos de vida e política, desenraizados deste “vício destrutivo” da corrupção e da morte.

Uma sociedade capaz de pensar é também capaz de levantar a cabeça, usar a inteligência que lei foi dada por Deus valendo-se disso para observar o processo educacional político informativo de toda a população de modo a criar se a verdadeira consciência do famoso sim, sim e não, não. (Mt 5, 37) O Encontro entre os religiosos teve encerramento com o almoço e confraternização na casa Religiosa dos Frades, logo após as avaliações e planejamentos realizados. Que o Espírito Santo, inspirador dos inúmeros carismas e talentos da Igreja, suscite santas vocações religiosas e desperte nas comunidades onde estes se inserem um ardente desejo de melhor consciência política, assim seja.

Em louvor de Cristo,

Amém.

Argentina Dias Porto e Rui Porto




 

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