Advento ainda não é Natal!

Algumas orientações litúrgicas e pastorais para bem vivermos o Tempo do Advento.

Todo o Ano Litúrgico gira em torno de duas grandes celebrações: Natal e Páscoa. Assim, o Ano litúrgico está dividido entre esses dois Ciclos: o Ciclo do Natal e o Ciclo da Páscoa, ambos constando de três momentos:   a preparação, a própria festa e seu prolongamento.

Sendo assim, o Advento é o Tempo de preparação para o Natal do Senhor e marca o início do novo ano litúrgico, o recomeço de uma vivência vivida por Cristo, com Cristo e em Cristo. Advento quer dizer chegada! Durante este tempo, somos convidados, através das leituras bíblicas, dos cantos e das celebrações, a preparar o coração para acolher o Filho de Deus que vem para viver conosco. Tudo fala dessa preparação, desse espírito de vigilância; tudo fala da esperança da vida e do anseio pela paz, que deve florescer dentro de nós.

O Advento se divide dois em momentos. O primeiro, a partir do primeiro Domingo, vai até o dia 16 de dezembro. Nestes dias as leituras bíblicas nos falam da segunda vinda do Senhor no final dos tempos, que nós chamamos parusia ou escatologia cristã. Do dia 17 à 24, a Igreja intensifica sua preparação, tal como uma novena, ou tríduo, apontando mais explicitamente para a primeira vinda do Senhor, na noite Santa do Natal.

Com Isaías, João Batista e Maria, a Igreja vive um tempo de “gestação”. Não é um tempo explicitamente penitencial, mas um tempo de sobriedade, esperança e expectativa. Por isso, é muito importante vivermos bem esse tempo com total desprendimento, contemplando o vazio do espaço celebrativo, vigiando a chegada do “esperado das nações”. Ainda não é hora de montarmos o presépio, nem acender pisca-pisca, nem enfeitar as casas e a Igreja com símbolos natalinos. É tempo de vivermos uma profunda preparação! A cor roxa pode nos inspirar neste caminho.

Acima, acabei de falar que a Igreja vive um tempo de “gestação”. Assim, imaginemos uma gestante… Enquanto ela aguarda o nascimento de seu bebê, ela não sai usando as roupinhas do bebê e todo o enxoval. Tudo ainda está nos armários, guardado com muito carinho, ansiando pelo grande dia. Do mesmo modo, também será a nossa espera pelo nosso Salvador na Liturgia. Embora tenhamos sua manjedoura, e todos os símbolos que nos recordam seu nascimento, também não vamos usar até que se complete o tempo de seu nascimento.

Por isso, é muito bom ficarmos atentos para não deixarmos entrar em nossas Igrejas e nossos lares o espírito consumista imposto por nossa sociedade. Pois, enquanto o calendário Litúrgico celebra o Advento, o comércio já está vivendo o tempo do Natal. E o pior é quando deixamos isso entrar em nossas Igrejas, a ponto de não distinguirmos o que é Advento e o que é Natal. Quando montamos presépio, pisca-pisca, árvores de Natal e enchemos a Igreja de símbolos natalinos em pleno Advento, é sinal de que deixamos o espírito consumista entrar em nossa Liturgia e espaço celebrativo. Diante disso, é necessário que ordenemos os nossos símbolos de acordo com o seu tempo próprio: Símbolos do Advento no Tempo do Advento e símbolos do Natal no Tempo do Natal. Quanto mais despojado, vazio e sóbrio estiver o espaço celebrativo, melhor celebraremos o Advento. Assim, na Noite do Natal, Deus virá para ocupar o vazio do nosso coração. Então, seremos plenos de Deus!

Um símbolo próprio do Tempo do Advento é a Coroa de Advento, um meio de marcar nossa contagem para a Festa do Natal. A Coroa deve ser sempre de formato redondo, símbolo do infinito. As 4 velas, podem ser 3 roxas e uma rosa, que são as cores predominantes neste tempo. Os adornos sejam sempre naturais, evitando o uso de coisas artificiais. O bom seria que a coroa fosse simples, com ramos verdes, talvez alguns pouquíssimos botões de flores, destacando a esperança. Laços, bolas de natal e outros enfeites, não caem bem.

Ao longo de quatro semanas a Igreja entoa um canto que transparece a vigilância, a esperança e a alegria pela vinda do Emanuel, o Deus-Conosco, o Príncipe da Paz. Aos animadores do canto, cabe suscitar na assembleia um canto ardente, ansioso pela chegada do Salvador, “tal como a terra seca esperando a chuva”.[1] Como que em acordes menores, os cantos sejam repletos de esperança e expectativa. Dos lábios dos fiéis e dos ministros do canto, dos dedos dos músicos, devem brotar a amorosa e vigilante melodia: “Senhor, vem salvar teu povo!”[2] 

A Irmã Míria, com grande experiência nesta área litúrgico-musical, nos ajuda a definir como a como a Igreja canta o Advento:

“Além de valorizar símbolos e gestos próprio deste tempo (a Palavra, a Coroa de Advento, a Novena de Natal, o uso da cor própria, celebrações de reconciliação, gestos de solidariedade…), os cantos e as músicas também são próprios e têm uma função importante, devendo expressar alegria e esperança, inspirados nos textos bíblicos que falam da vinda do Senhor, o Emanuel, Deus-Conosco. Os salmos responsoriais e a aclamação ao Evangelho acompanham o sentido das leituras. Os ministros do canto não podem improvisar, mas devem escolher e preparar bem os cantos que mais estão em sintonia com a Palavra, o Tempo e os momentos rituais, dando destaque ao Ato Penitencial, ao Santo, à Aclamação Memorial, ao Cordeiro de Deus, algum refrão orante… Os instrumentos musicais devem ser também silenciados, fazendo um acompanhamento mais suave e discreto. No Advento não se canta o Glória (Hino de Louvor), porque é tempo marcado pela sobriedade”.[3]

Frei Zilmar Augusto, OFM


[1] Salmo 42(42) – Sede de Deus e saudades do templo.

[2] Guia Litúrgico Pastoral. p. 105. Cantar o Advento do Senhor. Edições CNBB, 2017.

[3] KOLLING, Ir. Míria T. Sustentai com Arte a Louvação: A música a serviço da liturgia. p. 199. São Paulo: Ave Maria, 2011.



 

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