O quarto domingo do Advento deste ano coincide com a vigília de Natal. Dessa forma, o evangelista Lucas nos conduz ao momento da Anunciação do Senhor. “O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo! […] Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível”. (cf. Lc 1,26-28.36-37).

Essa citação marca uma síntese do episódio chamado “Anunciação”, que lemos hoje, na véspera de Natal, porque se refere ao nascimento de Jesus: sua concepção, no útero de uma virgem que continua a permanecer, porque o que acontece nela não é uma obra humana.

O evangelista Lucas nos recorda que Deus vem nos visitar através dos seus “anjos”, nos recorda ainda, que a nossa solidão é visitada pela presença amorosa de Deus, uma presença humilde, forte, silenciosa, discreta e muitas vezes invisível aos nossos olhos, por este motivo: “não tenhas medo”. (cf. Lc 1,30).

Deus, a quem tudo é possível e que também tudo pode alcançar o que é inimaginável para nós, entra no mundo por meio de uma criança no imaculado útero de Maria. Esse fato por si só constitui algo impensável: o Criador, o Eterno, o Onipotente, si é rebaixado para se tornar uma criatura humana.

Nesta imagem sublime, a figura de Maria é colocada em uma posição proeminente. O  anjo a chama de “cheia de graça”(cf. Lc 1,28): essa expressão manifesta um amor incomparável na predileção e um projeto que a envolve. Maria é realmente “cheia de graça”, pois, encontrou graça e distribuiu graça a cada um de nós seus filhos. Graça é acolher na própria vida o dom de um anúncio, e nele, depositar: fé, esperança e confiança. Confiar no “impossível” e esperar em um Deus que nos fez uma grande promessa que vai além da nossa pequenez, das nossas fragilidades, das nossas feridas, dos nossos pecados e limitações.  É Deus que promete. Ele nos pede somente que confiemos em suas promessas. Deus jamais deixa uma vida sem promessas, pois tem sempre um desejo para nós, encontra sempre um modo para nos convidar a caminhar. É Ele que promete permanecer para sempre ao nosso lado: “eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.” (cf. Mt 28,20).

Diante da promessa de Deus, através do anjo Gabriel, “Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”! (cf. Lc 1,38). O sim de Maria é, portanto, um sim cheio de confiança, esperança e amor. Ela confia no anjo e é impulsionada pelo amor a realizar o projeto de Deus. Sem confiança e amor, jamais realizaremos nenhum projeto. Na vida, se tivermos confiança, o medo não nos impedirá de realizarmos os projetos de Deus em nossas vidas, pois, somos inseridos em um projeto de amor incondicional. Um amor que nos abraça, que nos acalenta, que restaura e nos dá dinamismo; um amor que doa tudo, mas que nos dá a liberdade de resposta.

O amor é feito de fidelidade e surpresa. O amor é perseverança e novidade juntos: confirma e espanta, conforta e vibra. Nada é impossível ao amor. Pelo contrário, o amor traz o nada à existência, o amor transcende os limites da razão e traz à luz a razoabilidade mais íntima. O amor promove encontros, por este motivo, Deus vai ao encontro de Maria na sua cotidianidade, onde a mesma espera junto com seu povo a redenção de pessoas feridas e perdidas. Deus cumpre sempre a promessa, as promessas. Maria representa a promessa de Deus e a história de cada homem e de cada mulher do nosso tempo. Maria nos ensina que o amor, é a base de todo “sim”, de toda vocação, é um presente total, é terno e forte, silencioso e eloquente. É a esta humanidade estéril e sem esperança que Maria leva Cristo. É Ela quem nos conduz a Jesus, o único salvador que nos protege amorosamente; por isso, a invocamos como mãe e mediadora.

Maria é a mulher simples, uma mulher que acredita na vida, que não perdeu a fé na possibilidade de que algo mude, é uma mulher tão simples quanto a casa que vive, como sua vida cotidiana anônima. Por este motivo, o evangelho hodierno nos confirma que Deus usa coisas simples, as mais comuns, as que pertencem à vida cotidiana para si comunicar, como por exemplo: uma mulher que espera um filho, para realizar seu projeto de salvação. Assim, a Anunciação é, portanto, a narração do matrimônio que Deus estabelece com a humanidade através do Verbo Encarnado. Que Maria possa ser anunciadora de uma boa nova na tua vida neste dia que nos separa do natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

PAZ e BEM!

Frei Israel Cardoso, OFM

Informações da imagem:

Anunciação, óleo sobre tela por Michelangelo Merisi da Caravaggio(1609), Musée des Beaux-Arts, Nancy, França.

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