Quaresma, um tempo rico de mistagogia

Estamos prestes a iniciar mais um tempo forte de nossa fé: o Tempo da Quaresma. Ao longo destes quarenta dias, escutando com mais frequência a Palavra, os fiéis imploram com maior intensidade ao Pai, que lhes ajudem a “progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa”.[1] 

A Igreja define a Quaresma, que começa na Quarta-feira de Cinzas e se estende até a Missa da Ceia do Senhor,[2] como um Tempo de graça e salvação,[3] concedido por Deus ao seu povo, a fim de preparar com alegria e de coração purificado, a festa da Páscoa. [4] Ao longo deste período, nos empenhamos na vivência pedagógica da penitência e da abstinência, que corrigem nossos vícios, elevam nossos sentimentos, fortificam nosso espírito fraterno,[5] quebram nosso orgulho e nos convidam a imitar a misericórdia do Pai, repartindo o pão com os necessitados.[6]

O itinerário penitencial da Quaresma tem uma dupla finalidade na vida da Igreja:

a) conduzir e acompanhar os catecúmenos que foram “eleitos” e passaram pelos “escrutínios”, e também os catequizandos, até a pia batismal. Esse será o tempo propício da “iluminação” e “purificação”. Pois, nesta fase do processo de iniciação cristã, espera-se dos catecúmenos uma conversão de mentalidade e costume, suficiente conhecimento da doutrina cristã, senso de fé e da caridade, elementos esses que os ajudarão a preparar mais intensamente o espírito e o coração.[7]

b) preparar os fiéis a fim de que possam renovar, com redobrada consciência eclesial, as promessas de sua fé na Vigília Pascal.

Para que fique bem explicito esse itinerário, é necessário que os ministros falem, em suas homilias e catequeses, sobre a dupla finalidade deste tempo,[8] muito bem expressa na Oração do Dia do sábado 5ª Semana da Quaresma: “Ó Deus, vós sempre cuidais da salvação dos homens e nesta quaresma nos alegrais com graças mais copiosas. Considerai com bondade aqueles que escolhestes, para que a vossa proteção paterna acompanhe os que se preparam para o batismo e guarde os que já foram batizados.[9]

O Tempo da Quaresma implora pela sobriedade. Por isso, não se usa flores, nem folhagens no altar.[10] A ausência da ornamentação no espaço celebrativo nos fará correr esperançosos até a Páscoa, que se apresentará a nós com seu colorido e flores, nos devolvendo o tom da alegria e da festa.[11]  

Durante esses quarenta dias, o canto sofre a ausência do “aleluia” e do “glória”, assumindo um caráter de conversão e penitência. O canto assume um tom de pesar, de tristeza, de angústia. Nas palavras de Reginaldo veloso, o canto desse tempo é um canto sem flores e sem as vestes da alegria, um canto “das profundezas do abismo” em que nos colocaram os nossos pecados (Sl 130).[12]

Deste modo, os músicos devem ficar atentos à escolha dos cantos que, em seus conteúdos bíblicos, devem convidar à conversão e à penitência, ao perdão, à caridade e à fraternidade.[13] Cuidem também quanto ao recolhimento dos instrumentos, usando-os somente para sustentar o canto. Por isso, é importante que se escolha apenas um ou dois instrumentos musicais, para que possa nos acompanhar nesse itinerário. Os instrumentos de percussão e outros, podem ser guardados para as solenidades pascais. “É tempo de favorecer o silêncio musical”, nos recorda Irmã Míria T. Kolling.[14]

Ainda sobre os cantos, Irmã Míria nos orienta: “Não se cante o Abraço da Paz, que, aliás, nem faz parte rito, mas valorize-se o canto que acompanha a fração do pão, o “Cordeiro de Deus”, pois Jesus é o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Que o “Senhor, tende piedade de nós” também seja valorizado, além das aclamações e de pequenos refrãos orantes. O chamado canto final poderia ser omitido, deixando o povo sair em silêncio. Poderia ser outra também a resposta à Oração dos fiéis, quem em geral é “Senhor, escutai nossa prece”, como por exemplo: “Jesus, Filho de Deus, tem compaixão de nós!”, além de outras, sugeridas pelo Missal Romano”. [15]

Como pudemos notar, tudo, no Tempo da Quaresma, nos conduz à abstinência espiritual. O nosso corpo se abstém de alimentos; nossos olhos se abstêm de contemplar a beleza das flores, que enfeitam o espaço celebrativo; nossos ouvidos abstém-se dos sons dos instrumentos; nossos lábios abstêm-se do canto do “glória” e do “aleluia”; nosso coração se abstém da alegria do coração. Toda essa abstinência, quer fazer-nos adentrar na estrada do Êxodo e nos conduzir até aos pés da montanha sagrada, para que, humildemente, tomemos consciência de nossa vocação de povo da aliança.[16]

Ao longo desse tempo, voltando-nos para Deus, prestemos mais atenção em cada oração feita pelo presidente da celebração; escutemos mais atentamente a Palavra de Deus e nos empenhemos em imitar a misericórdia do Pai, sempre em relação com os irmãos e irmãs, que nos acompanham lado a lado. Afinal de contas, Quaresma é tempo rico de entrar a fundo no mistério da nossa Fé.

Frei Zilmar Augusto, OFM


[1] Oração do Dia do 1º Domingo da Quaresma. Missal Romano, p. 182.

[2] Missal Romano. O Tempo da Quaresma. p. 105. n. 28.

[3] Prefácio da Quaresma, II. Quaresma, tempo de conversão. Missal Romano, p. 415.

[4] Prefácio da Quaresma, I. Sentido espiritual da Quaresma. Missal Romano, p. 414.

[5] Prefácio da Quaresma, IV. Os frutos do jejum. Missal Romano, p. 417.

[6] Prefácio da Quaresma, III. Os frutos da abstinência. Missal Romano, p. 416.

[7] Ritual da Iniciação Cristã de Adultos (RICA). p. 23. §21s. Paulus. São Paulo, 2016.

[8] Sacrosanctum Concilium, n. 109.

[9] Oração do Dia do sábado da 5ª Semana da Quaresma. Missal Romano, p. 219.

[10] Paschallis Sollemnitatis. A preparação e celebração das Festas Pascais. p. 13. n. 17. Brasília, Edições CNBB. 2018.

[11] FERREIRA, Eurivaldo S.  O canto litúrgico quaresmal. Caderno de Partituras e Cifras da CF 2018. Edições CNBB. p. 7.

[12] VELOSO, Reginaldo. Introdução ao Hinário Litúrgico da CNBB, Volume II –  Ciclo da Páscoa, São Paulo: Paulus, p. 7.

[13] Conferir o repertório litúrgico contido no Hinário Litúrgico da CNBB, NOS CDs gravados pela Paulus:  “Liturgia XIII” e “Liturgia XIV e também os CDs da Campanha da Fraternidade, que a alguns anos vem trazendo composições litúrgicas propícias.

[14] KOLLING, Ir. Míria T. Sustentai com arte a Louvação. A Música a serviço da Liturgia. p. 194. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2011.

[15] Ibidem, p. 195.

[16] Prefácio da Quaresma, V. O êxodo no deserto quaresmal. Missal Romano, p. 418.



 

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