O evangelismo de Santo Antônio como expressão da Espiritualidade Franciscana nas Fontes

O tempo propício em que estamos vivenciando – a difusão e piedade popular do mês de Junho – evidenciam que o teor de nossa realidade está permeada do grande frade menor, Antônio de Lisboa, Doutor da Igreja e “homem evangélico”, simples e popular, que soube unir a ciência sem “extinguir a devoção”. O seu aspecto evangélico, seu apego ao Evangelho e a força de conversão de sua palavra, acessível ao povo e aos descrentes propõe de novo os valores humanos e evangélicos que ele encarnou em seu tempo, fazendo-se discípulo de Cristo e irmão do irmão Francisco de Assis.

Sua história

Para a maioria é Antônio de Pádua; para alguns, Antônio de Lisboa, lugar de seu nascimento. G. Abate – historiador europeu – crê que nasceu em Lisboa, em 1188, e que morreu aos 43 anos de idade; D. G. Benvenuti – estudioso acadêmico – acredita que nasceu em 1195 – esta é a data escolhida para celebrar o Oitavo Centenário do seu nascimento -, e que faleceu aos 36 anos de idade. Nasceu em Lisboa, Portugal. Seu nome próprio foi Fenando Martins, de nobre família.

Estudou e ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, num mosteiro próximo a Lisboa, para logo passar ao de Santa Cruz, em Coimbra, sede de estudos e cátedra de grandes mestres teólogos, de alto nível cultura e socioeconômico. Ali, entre 1218-1220 foi ordenado sacerdote, e ali conheceu os cinco irmãos menores de Francisco de Assis a caminho da missão no Marrocos, cujos corpos martirizados retornaram pouco depois. Fernando ingressa na Fraternidade Franciscana, muda seu nome para Antônio e pede para ser enviado em missão ao Marrocos, em fins de 1220. A missão de Antônio e seu martírio foram frustrados (Francisco havia vivido uma experiência similar).

Enfermo, obrigado a regressar, náufrago nas costas da Itália – na Sicília -, em 1221, Antônio está no Capítulo das Esteiras, onde pôde conhecer Francisco e vários milhares de irmãos. Desconhecido, retira-se para o Eremitério de Montepaolo e celebra a Eucaristia com a fraternidade local. Do estudo da teologia ao silêncio orante de um eremitério, passando por uma frustrada missão entre os sarracenos! Um itinerário espiritual profundo e humilde, radical e evangélico. Uma pregação diante de dominicanos e franciscanos em Forli, em 1222, vem a ser o primeiro cintilar deste santo pregador de “legenda”. Em 1222, inicia sua pregação dirigida aos cátaros, no norte da Itália, uma pregação repleta de sinais milagrosos. Em 1223 organiza a primeira casa de estudos teológicos franciscanos, em Bolonha. Recomeça sua pregação aos cátaros, no Sul da França – albigenses e “patarenos”, como os chamam ali. Ademais, Antônio é superior em diversas comunidades, e segue nelas pregando. Permaneceu dez anos na Ordem, nove deles dedicado à pregação itinerante, à cátedra fraterna, ao confessionário, à catequese e aos sermões e à polêmica com os hereges.

Evangelismo Vivo

Evangelismo como modo ou sistema moral e religioso, fundado no Evangelho que direciona para um jeito de fazer com que a Boa-Nova aconteça, assim como o de Antônio – que é “pregação feita acontecimento de vida” (História da Igreja de Cristo, III, 1958, p.65). Ele convida a falar e orar em termos evangélicos, populares, espontâneos, em sintonia com os acontecimentos e a cultura contemporânea, em cada tempo e lugar. Nisto vemos algumas das suas dimensões:

  • Espírito de pobreza e minoridade;
  • Amor à Igreja: a Igreja resistente às reformas do Concílio de Latrão IV e sem ceder a silêncios cúmplices, fala que “a Igreja é o corpo de Cristo, que está crucificado e morto por um clero que cala e se enriquece, que se mancha com a simonia e o concubinato e que prefere o poder ao serviço” (Sermões 1,37);
  • Leitura humanista do homem: vincula uma visão humanista do homem a caminho da conversão cristã, ou seja, o homem como microcosmo, mundo em miniatura, frágil e luminoso, esplêndido e ambíguo, virtuoso e pecador, imagem e semelhança de Deus, capaz de opções radicais;
  • Pregação e testemunho: desenvolve três qualidades da sagrada eloquência: a qualidade de vida, doutrina e firmeza. Faz de sua pregação testemunho silencioso da pobreza e do desapego, da pureza e transparência, da entrega obediente e da ciência madura. O provocativo franciscano não advém por sentimentalismo nem por saudade de um radicalismo evangélico fanático, mas pelo empenho sempre renovado de encarnar o Evangelho no espírito das bem-aventuranças, nas diversas culturas e ambientes, em plurais formas de espiritualidade, num evangelismo popular vivo e profundo.
  • Taumaturgo dos pequenos relatos: Antônio evangelizava a partir do simples, daquilo que atinge o povo e ali transmite a mensagem de Jesus, pois os humildes são o povo do Senhor e as ovelhas do seu rebanho. Seus milagres acompanhavam sua pregação e por isso, suas palavras tiveram grande impacto social, pois defendiam as necessidades daqueles que estavam marginalizados pela transição feudal-comuna. A causa do pobre age no ímpeto do anúncio, segundo o próprio Francisco que traduz que a vida e missão franciscanas têm como esquema básico ”sair do mundo para voltar novos ao mundo e evangelizá-lo”.

Fontes Franciscanas

As citações de Antônio surgem a partir do Capítulo de Arles, no episódio da aparição de Francisco a Frei Monaldo (1 Cel 48), na exaltação de seus milagres, a partir do que o autor quer comunicar (Fi 44; Fi 45) e na redação da Carta a Antônio que exprime seu desejo pelo ensino da teologia, ao lado da oração e devoção (2 Cel §163, CAnt.).Sua função taumatúrgica é confirmada na cura do frade Roberto, dum convento de Nápoles, (3 B §7, 1), além de outras curas atribuídas a Santo Antônio em suas biografias Assidua, Rigaldina, Benignitas, etc.

Além deste teor dos milagres, Antônio aprofunda sua leitura nos Evangelhos, parte de temas que, combinados e reunidos, configuram uma espiritualidade franciscana, pois estão centradas no mistério da humanidade de Cristo, na pobreza e no seguimento. Ele “toma do Evangelho e dos padres a devoção ao Sagrado Coração e transmite-a a São Boaventura; a devoção ao Nome de Jesus e transmite-a a São Bernardino de Sena; a devoção ao Sangue de Cristo e transmite-a a São Jaime da Marca; a devoção ao Cristo Rei da criação e da redenção e transmite-a a Scoto” segundo Gemelli.

“Embora pouco citado nas Fontes Franciscanas, sua vida de grande testemunho contribuiu para uma pregação franciscana responsável, na busca da vivência do Evangelho e na oração e devoção como prática cristã.” (Congresso Latino-Americano Antoniano)

Frei Luciano Souza da Cruz, OFM


PARA REFLEXÃO PESSOAL

1. Quais elementos da vida de Santo Antônio contribuem para a vida do Frade Menor hoje? Qual legado ele nos deixou?

2. Assim como Santo Antônio, qual a reação que devemos tomar ante o fracasso, seja ele qual fôr, para retomar a força no anúncio do Evangelho?

3. . Qual será meu empenho na formação obtida?



 

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