Leigos e leigas testemunharam suas experiências de vida no 2º dia da Semana de Formação Custodial

Manhã

Um momento para ouvir os leigos

Este segundo dia de nosso encontro formativo proporcionou-nos um momento ímpar ao proporcionar-nos ouvir um pouco acerca das experiências e expectativas de alguns leigos que atuam conosco junto aos trabalhos de evangelização pastoral e social. Às luzes do Documento 105, “Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade”, o período matutino foi conduzido pelos senhores José Juvenal da Silva e José Edson da Silva Diniz. O primeiro, ministro da OFS de Ribeirão Preto, agente da Pastoral do Dízimo e da Pastoral da Criança, auxiliou os frades na implantação de pastorais, e na evangelização paroquial; o segundo, também membro da OFS, atualmente é professor coordenador do SESI e auxilia também a nível de formação e pastoral.

Em suas falas, ambos demonstraram o quanto a cooperação entre leigos e os religiosos franciscanos, na realidade ribeirão pretana, foi importante para um melhor desenvolvimento social e religioso local. Relembrando nomes de inúmeros frades que passaram por Ribeirão Preto, seu Juvenal demonstrou imenso apreço pela Igreja, meio de santificação pessoal e comunitário.

Foram mutirões, doação de tempo, recursos, visitas e formações, feitos com muita dedicação e zelo, que tornaram a Paróquia Santo Antônio de Santana Galvão e Santo Antônio Maria Claret de Ribeirão aquilo que ela é hoje: uma comunidade que, além do atendimento espiritual de grande porte feito no Bairro Ipiranga, coopera com a transformação social por meio de suas obras de assistência e pastorais sociais.

Dentre os pontos elencados como dificuldades enfrentadas pelos leigos, os convidados apresentaram a preocupação com a formação do laicato, a colaboração dos frades para a evangelização e o problema da clericalização dentro da formação religiosa e mesmo dentre os próprios leigos, algo apontado também pelo Doc 105. Não obstante a diferença nos métodos de evangelização, já notadas entre paróquias regidas pelo clero secular daquelas do clero religioso, mencionaram ainda a grande necessidade que os frades têm pela frente para evangelizar, com o diferencial do Carisma Franciscano, principalmente as novas gerações.

Outra preocupação externada é para com a problemática existente entre a instituição e o carisma, uma balança que deve manter-se em constante equilíbrio para o bom êxito da Ordem Secular e mesmo da OFM. Ao final houve espaço para as questões e proposições dos religiosos, que levantaram seu ponto de vista acerca dos pontos elencados, deixando no ar perguntas como: “O que os religiosos esperam dos leigos em sua atuação pastoral?”; e: “Como os leigos veem os religiosos?”

Tarde

O período vespertino contou com a presença de representantes da Casa de Santa Clara, de Bebedouro. Obra social que funciona como “casa abrigo” para crianças entre 0 e 18 anos, tinha a princípio por objetivo atender às crianças de 0 a 12 anos, como o era amparada pelo sistema legal da época, hoje, precisou adequar-se às novas legislações, também atendendo adolescentes entre 13 e 18 aos. Isto exigiu mudanças de algumas estruturas básicas da casa, além de adequações às leis governamentais e determinações judiciais: atendendo os mais crescidos por meio de projetos específicos e, quando estes chegam na instituição, por meio de determinações judiciais, a acolhida de seus irmãos consanguíneos se necessário.

Grande destaque deve ser dado ao olhar diferenciado oferecido pela casa às crianças que lhes são confiadas. Dentre elas, destacamos o resgate dos valores, da auto estima, o cuidado e a atenção para com o menor, elementos que são os maiores benefícios e o grande diferencial oferecidos às crianças. Elementos oriundos do próprio cristianismo e fortemente impressos no carisma franciscano, mas que acabam por transformar-se em raridade no seio de muitos lares.

Um marco diferencial que caracteriza-se pelo acompanhamento junto às famílias que recobram a guarda de seus filhos. O mesmo pode-se dizer quanto à atenção dada por um tempo ainda às crianças que são adotadas e a preocupação com aquelas crianças que não entram mais no rol das adoções – atualmente cinco – ambientes que requerem cuidado e carinho especiais. Há ainda a importância de se mencionar que a Casa de Santa Clara chegou a abrigar um número de vinte e nove crianças, dentre as quais muitas foram reabrigadas pelos próprios familiares, outras adotadas.

Muito louvável para esta obra foi e continua sendo a ajuda de benfeitores, que por meio de doações e campanhas auxiliam o Projeto. Merece destaque também a preocupação por parte da entidade, em parceria com outras instâncias civis, de se evitar que as crianças sejam acolhidas pelo abrigo, muitas vezes por meras questões simples de serem resolvidas com medidas preventivas. Depois de dezoito anos de fundação, a visão promovida na instituição é outra: acolher sempre, mas em caso de extrema necessidade e impossibilidade por parte dos próprios familiares. O diferencial franciscano impresso aqui é a saída do status de técnico para o olhar através da dignidade de ser humano. “Somente nós, que estamos ali todos os dias, sabemos a dor de uma criança quando retirada da casa dos familiares”, afirmou Lucimara Lopes, coordenadora da instituição. Simplesmente retirar as crianças do próprio lar, sem cuidar e acompanhar as famílias, sem prevenção e cuidados familiares não é o melhor caminho, além de ser muito mais custoso seja em nível público, ou mesmo em instituições não-governamentais.

A Casa de Santa Clara, referência em todo o estado de São Paulo, recebeu o Prêmio de Invação Social, pelo governo estado em vista de seu projeto “Prevenção ao Acolhimento: Clarear”, que acompanha e auxilia as crianças e adolescentes ainda em seus ambientes familiares, identificando possíveis complicações e incapacidades de cuidado por parte dos familiares, ou mesmo recomendando ao ministério público quando a acolhida na casa abrigo é desnecessária. Ainda merecem menção os projetos: “Serviço de Acolhimento Institucional: Promoção Humana” e “Egressos do Serviço de Acolhimento Institucional: Aconchego”. Que acompanham as famílias e procuram oferecer assistência de modo a auxiliar as mesmas quanto aos cuidados e instruções básicas de vida familiar. Hoje a casa capacita seus monitores de modo a olhar para as crianças com uma ótica humanitária e fraterna. Também conta com apoio de profissionais como psicólogos, fonoaudiólogos, médicos, educadores, pedagogos, musico terapeutas, assistentes sociais.

O seu grande desafio é oferecer oportunidade às crianças e adolescentes de modo que as mesmas não sofram rejeição ou incompreensão por parte da sociedade civil. Em seu atendimento, os profissionais envolvidos no projeto realizam todo um acompanhamento formativo junto às famílias por meio de orientações e auxílios materiais – se necessários – de modo a oferecer-lhes melhores condições de vida. Algo que se comprova já desde os próprios métodos de formação e educação das crianças que se encontram distantes do seio familiar, onde a preocupação recai sobre o cuidado de se oferecer oportunidades de orientação e formação semelhantes àquelas que receberiam de pais e mães. Por este motivo a casa preocupa-se com a formação dos próprios funcionários e educadores, de modo a oferecer este diferencial à população atendida.

Ademais, é possível compreender, a partir da “influência franciscana na instituição”, que o grande segredo para o desenvolvimento humano é olhar para o indivíduo de modo particular, sem contudo se esquecer de sua integralidade. “Jamais abrir as portas para o indivíduo sem se dispor a ensinar”, foi o grande lema que norteou e norteia os membros do corpo educativo local em sua missão; e isto resulta no fato de hoje as crianças serem acolhidas com atenção e carinho característicos desta casa abrigo. A tudo isto soma-se a confiança na providência divina e no cuidado de Deus para com muitas das crianças reinseridas ou adotadas. Não obstante o louvável gesto de adoção ou reinserção, por meio do “Projeto Aconchego” a família é acompanhada e orientada.

Impossível deixar de mencionar que a Casa de Santa Clara conta com diversos parceiros, os quais auxiliam, e muito, quanto à manutenção dos projetos e sustento da instituição. Haja vista que os eventos promovidos, embora tenham grande contribuição, não conseguem manter por si mesmos a instituição, a ajuda dos parceiros e das secretarias governamentais são uma outra fonte de recursos. Os investimentos do governo representam hoje pouco menos que a metade dos gastos com manutenção e funcionários e a grande maioria das entradas, desde os produtos de limpeza a materiais de uso pessoal, são oriundos de doações. Tudo isto expressa grande confiança na providência divina.

A coordenadora da instituição destacou a importância que toda a população bebedourense confere à presença franciscana na cidade e terminou lembrando que os frades possuem credibilidade e destacam-se pela honestidade e integridade do trabalho desenvolvido ali. O momento da tarde foi encerrado com comentários e questionamentos pertinentes por parte dos presentes e, em seguida, com a oração do Pai Nosso em favor de todos os envolvidos na Casa de Santa Clara, bem como das crianças atendidas pela instituição.

Em seguida os frades rumaram para um convívio fraterno, seguido de recreio.

Frei Everton Leandro Piotto, OFM




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